….casei com um comunista….

Macarthismo foi o início da conversão da política em entretenimento

Quem escreve o post hoje é Philip Roth.

Consagrado autor norte-americano, Roth disseca, com maestria, os absurdos do macarthismo, em seu “Casei com um Comunista”.

Roth descortina uma importante associação: a caça às bruxas é também a descoberta da teatralização da política como espetáculo –muito visível entre nós nas CPIs, na produção das legislações de pânico ou em operações policiais voltadas, sobretudo, para a cobertura jornalística.

“Na Fofoca, Nós Acreditamos”. No discurso do narrador, irmão do comunista do título, ator de rádio delatado por sua esposa, Philip Roth ironiza o slogan “In God We Trust” e fulmina o rebaixamento da política: “McCarthy compreendeu melhor do que qualquer político americano que as pessoas cujo trabalho era legislar podiam fazer muito mais em benefício de si mesmas se representassem um espetáculo”.

O jornalismo de celebridades deve mais à política do que se supõe.

O livro, editado no país pela Companhia das Letras narra os tempos sombrios entre os anos de 50 e 60, em que os Estados Unidos conviveram com denúncias e delações nas famosas audiências públicas de comissões de inquérito, para apontar comunistas e “inimigos da pátria”, capitaneadas pelo senador republicano Joseph McCarthy.

A caça às bruxas acabou por vitimar toda uma geração de intelectuais e artistas e pode ser também vista no cinema nos ótimos “Testa de Ferro por Acaso” (Martin Ritt, com Woody Allen) e “Boa Noite e Boa Sorte (dirigido e estrelado por George Clooney).

Leia o trecho de “Casei com um Comunista

“Mas é isso o que acontece. Uma vez encerrada a tragédia humana, cabe aos jornalistas banalizarem-na para convertê-la em entretenimento. Talvez porque todo aquele frenesi irracional tenha arrombado a porta de nossa casa e nenhum detalhe maledicente e distorcido dos jornais deixasse de chamar a minha atenção, acabei considerando a era McCarthy o início do triunfo da fofoca no pós-guerra, a fofoca que se estabeleceu como o credo unificador da mais antiga república democrática do mundo. Na Fofoca, Nós Acreditamos. Fofoca como o evangelho, a religião nacional. O macarthismo como o início da conversão não só da política séria mas de tudo o que é sério em entretenimento para distrair a massa. O macarthismo como a primeira florescência do vazio mental americano que agora está por toda a parte.

O negócio de McCarthy, na verdade, nunca foi a perseguição de comunistas; se ninguém sabia, disse, ele sabia. A virtude dos julgamentos-espetáculo da cruzada patriótica de McCarthy era simplesmente a forma teatralizada. Ter câmaras voltadas para aquilo apenas lhe conferia a falsa autenticidade da vida real. McCarthy compreendeu melhor do que qualquer político americano anterior a ele que as pessoas cujo trabalho era legislar podiam fazer muito mais em benefício de si mesmas se representassem um espetáculo; McCarthy compreendeu o valor de entretenimento da desgraça e aprendeu como alimentar as delícias da paranoia. Ele nos levou de volta a nossas origens, de volta ao século XVII e a nossos antepassados. Foi assim que o país começou: a desgraça moral como entretenimento público. McCarthy era um empresários dos espetáculos e, quanto mais desvairados os pontos de vista, tanto mais ofensivas as acusações, maior a desorientação e melhor a diversão para todo mundo.“

Não há comentário.

Deixe uma resposta