….Certas Canções: o romance das Diretas….

Certas Canções é um diário político-sentimental de um estudante nos anos 80. Conheça um trecho sobre a passeata das Diretas no Anhangabaú

A páscoa judaica era comemorada há milhares de anos e eu podia me lembrar dela no ano seguinte com a reverência que merecia, sem incidir em nenhuma transgressão.

Afinal, também nós fazíamos um êxodo em direção à terra prometida, que estava no entanto mais longe do que a nossas vistas podia parecer naquele momento. Bati a porta e saí sem responder à minha mãe, como se nem tivesse ouvido seu alerta. E fui descer a Brigadeiro para encontrar na São Francisco, o João, a Ana e outra centena de colegas que partiriam juntos para aquela viagem de poucos qui-lômetros e muitas emoções. Menos a Regina, que provavelmente se juntara a seus amigos da Psico, e acabou sumindo da minha vida antes mesmo de entrar.

No aquecimento, dentro da faculdade, nós nos vestimos para a guerra, com uma camiseta amarela, preparada no XI de Agosto: Diretas, direito nosso. Além de estar junto aos demais, todos queriam se identificar. Não eram apenas pessoas, eram centros acadêmicos, eram sindicatos, eram associações profissionais, eram cidades, bairros, comunidades de base. Era um mundaréu de gente, mas também um festival de faixas.

Nós ficamos esperando em frente ao Largo São Francisco, território livre dos estudantes segundo uma libertária lenda urbana, a passeata que iria nos abraçar. E esperamos bebendo, porque ninguém é de ferro, e lá ia eu esquecendo por completo do meu histórico clínico. Quando a multidão chegou, nos encarrilhamos a ela. Eu envolvi a Ana com o braço direito e o João com o esquerdo, ou vice-versa, e eles retribuíram alegremente também grudando-se em mim. Saímos do Largo como um monolito indestrutível, tão inquebrável como nossas crenças na vitória da liberdade.

Cantávamos, pulávamos e dançávamos juntos, porque a democracia podia ser luta, mas também era festa.

Eu já estava rouco, quando, arrependido pelo gesto súbito de desobediência e rebeldia, típico de um desses arroubos da mo-cidade, me enfurnei em um orelhão para ligar em casa e tentar dizer, diante do barulho de um milhão de pessoas a minha volta, que não, não ia mesmo dar para voltar a tempo do jantar. Minha mãe já não estava preocupada com as tradições religiosas e familiares, mas com a minha segurança. Como boa mãe judia, ela nem precisava da propagação que parte da imprensa fazia sobre os riscos das grandes concentrações. Eu tentei acalmá-la o quanto pude, não com a minha calma, mas com a minha alegria, e foi o que lhe bastou. Não houve perigo algum. Nunca foi tão sossegado andar pelo centro de São Paulo. E nunca foi possível estar tão bem acompanhado.

Confesso que não me lembro de nenhum dos discursos que aquela frente ampla de políticos fez ao cair da noite. Já estava tão cansado da minha própria euforia, que quando o corpo parou, lá no Anhangabaú, ainda molhado pela chuva refrescante que caíra, não era possível ouvir nada mais que não fossem as batidas do coração, o que já não era pouca coisa.

Como autômatos, respondíamos já aos repetidos coman-dos de Osmar Santos. Esta era a palavra da hora, aquela que estava engasgada na garganta de todo mundo. Tudo o que não podia ser exigido do povo era cautela, prudência, paciência. Tinha que ser já. E mesmo o já era tarde; afinal, nos perguntávamos, até quando esperar? Eu lembro que como nós, lá em cima eles também se deram as mãos, Lula, Montoro, Ulysses, Brizola, Covas e tantos outros que mais tarde viriam a se pisar uns nos pescoços dos outros, quando aquilo que eles queriam juntos finalmente vingou. Aquele era, portanto, um momento especial, tão especial que nunca mais se repetiu. O momento era de alegria, mas também de catarse.

Quando o silêncio se fazia por instantes, não mais do que rápidos e fugazes instantes, logo voltávamos a cantar a paródia daquele bordão esportivo que, no final do refrão, mandava o adversário para a puta que o pariu. Nós queríamos eleger o presidente do Brasil, essa era a rima rica –mas também havia muita gente na fila para ser endereçada àquele destino, e cada um acrescentava à lista o seu inimigo preferido.

Aplaudíamos a todos os nomes. Ninguém que pudesse es-tar ao nosso lado, nem que fosse a partir daquela tarde, e eram vários que aproveitavam esta oportunidade de se achegar, podia ser vaiado. Nossos artistas estavam lá. Milton, Chico, Caetano e a Fafá de Belém, que se transformaria na musa das diretas. E depois uma presença constante em homenagens fúnebres, como aquela que emocionava a todos, dedicada a Teotônio Vilela. O menestrel das Alagoas ingressou tarde na luta pela redemocratização, mas envolveu-se de corpo e alma tão profundamente que acabou virando o seu símbolo, magis-tralmente retratado pelo fino traço do Henfil.

O colorido do vale era impressionante. Mas as viúvas dos porões só se preocupavam com bandeiras vermelhas. Romeu Tu-ma era um desses que parecia destacado para contá-las e depois alertar a sociedade de seu perigo. Eles devem ter se arrepiado ao ver aquele povo cantando o hino nacional, ao mesmo tempo em que desfraldavam foices e martelos, sem qualquer baderna.

Verdade que a apropriação indébita que a ditadura fez dos símbolos nacionais provocara em muitos aflição às coisas da pátria. Hastear bandeira, nas escolas, era uma atividade obrigatória, acompanhada de uma fila militar. E estudar educação, moral e cívica ou organização, social e política brasileira, significava, quase sempre, reverenciar autoridades verde-olivas. Mas naqueles dias de 84, até os mais resistentes, aqueles que só ouviam a Internacional desde criancinha, mesmo estes se renderam aos tortuosos e tonitruantes versos de Duque Estrada, porque o hino era nosso, muito antes de ser deles.

Mas eles, eles teriam vida curta. Porque nós estávamos na rua. E isso bastava. Estávamos abraçados, sorridentes, chorosos e suados. Carregávamos mais certezas do que cabia em nossos corações e mentes. Eu, a Ana e João passamos abraçados por mais tempo do que podíamos imaginar naquele dia, como já havíamos estado na noite anterior. Ninguém de nós duvidava que íamos vencer. Que construiríamos uma sociedade melhor, mais justa, mais solidária, mais democrática e tantos outros mais que o futuro podia nos reservar de melhor. E que seríamos amigos inseparáveis, forjados na luta, no carinho, no respeito e mais do que tudo, no amor.

Mas o tempo ia se encarregar de provar o quanto estáva-mos errados.

conheça mais sobre Certas Canções:

Certas Canções no Google Books

“As ilusões perdidas” (crítica de Manoel da Costa Pinto)

“Quando o tempo nos faz estrangeiros” (crítica de Marcio Sotelo Felippe)

Entrevista sobre Certas Canções

Um comentário sobre ….Certas Canções: o romance das Diretas….

  1. Anônimo 17 de abril de 2012 - 01:34 #

    Amei esse livro..é como se eu de alguma forma..tivesse compartilhado daqueles momentos…e que na verdade compartilhei….pois..nós..viviamos no mesmo movimento da terra..no mesmo tempo….muito perto no espaço!!!!!

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