….crimes em contos….

A vida que existe por trás dos crimes é tema de livro de renomado advogado alemão

Culpado ou inocente?

Esta é a pergunta que menos interessa a quem acompanha as histórias de “Crimes”, best-seller do advogado alemão Ferdinand von Schirach, aqui publicado pela editora Record.

Bizarras muitas vezes, narradas com inacreditáveis detalhes, suas histórias são estruturadas como pequenos contos policiais. Lançado como obra de não-ficção na Alemanha, foi publicado como livro de mistério nos Estados Unidos.

Sem prefácio ou notas explicativas, a editora sugere que aferir a veracidade dos relatos vem a ser a primeira das tarefas do leitor.

E são justamente as histórias de vida, mais ainda do que as histórias de morte, que seduzem em “Crimes”.

A paulatina desconstrução de um cônjuge apaixonado e fiel, após décadas de um opressivo relacionamento (em “Fahner”), a sabedoria oculta de um rapaz tido como simplório que edifica um álibi inquestionável (“O ouriço”), a não-história de um inocente altamente suspeito e totalmente desconhecido (“Legítima defesa”).

São casos que enredam leitores, como também advogados, promotores e juízes. Por suas páginas, desfilam um empresário vingativo, uma prostituta azarada e até mesmo um canibal.

Mas a capacidade transformadora da verdade é o que de mais sensível o livro nos proporciona. Em “O etíope”, Schirach relata o processo de um assaltante de banco, que vem a ter um tratamento abrandado quando sua história, com as impressionantes armadilhas que o destino lhe preparou, é relatada à corte pelo psiquiatra forense.
Uma lição de humanidade.

Para além dos relatos policiais, o livro é também um interessante retrato da justiça criminal, pela ótica do advogado de defesa.

Sem o peso do didatismo, o autor espalha pelos contos, com senso de oportunidade que permite não sufocar o interesse do leitor, preciosos aprendizados de sua carreira.

Como por exemplo, quando explica porque resolveu não fazer indagações em um determinado depoimento: “Na arguição das testemunhas, a regra mais importante para um advogado de defesa é não fazer perguntas para as quais não tenha as respostas. As surpresas nem sempre são agradáveis, e não se pode brincar com o futuro do cliente”.

Ou ao justificar a importância da própria função: “Certa vez, um investigador criminal disse a um juiz federal que os defensores eram freios que detinham o carro da justiça, e o juiz respondeu-lhe que um carro sem freios também não servia para nada”.

Com argúcia e sensibilidade, felizmente lhe sobra condições para entender as dificuldades de quem julga. No sistema alemão, o juiz de instrução não precisa ouvir testemunhas ou suportar a monotonia dos longos júris, conta Schirach. “Mas esse é apenas um dos lados da questão –completa. O outro é o da solidão. O juiz decide sozinho. Tudo depende dele. Ele prende ou solta as pessoas. Há ofícios mais simples”.

Como um experiente advogado, Schirach não se perde em julgamentos morais de seus clientes, mas também não se aventura na crítica social. Não busca ser denuncista, nem tem a pretensão de transformar o que apresenta.

“Crimes” pode ser sorvido simplesmente como um livro de contos policiais –as histórias são boas e muito bem contadas. Passa com louvor pelo gênero do romance judicial, descrevendo julgamentos e suas estratégias em detalhes realísticos e não enfadonhos.

Mas, sobretudo, deve ser apreciado como o descortinar da vivência do direito em seu sentido mais amplo.

Serve para nos mostrar como o árido e formal ambiente dos tribunais interage de forma ainda cambaleante com as ranhuras da vida. Como as emoções e sofrimentos são compactadas em peças processuais. Como os problemas com que o direito se depara dificilmente se esgotam em poucos pares de fórmulas jurídicas.

Afinal, os processos criminais cuidam muito mais do que de lei e ordem.

Direito penal trata da experiência humana em si mesmo. Deixá-la do lado de fora dos julgamentos, por omissão, insensibilidade ou preconceito, é certamente o maior dos pecados de um jurista.

Se o assunto lhe interessa, leia também as Crônicas do Crime que publico aqui no Blog Sem Juízo, com o propósito de compartilhar o olhar do juiz.

Conheça também outras dicas da Seção Prateleira:

Operação Massacre, de Rodolfo Walsh

Na Colônia Penal, de Franzk Kafka

Casei com um Comunista, de Philip Roth

Não há comentário.

Deixe uma resposta