….fascismo emergente esmaga a solidariedade….

Para além de cálculos e códigos, cassetetes e tratores, existem vidas esperando ser simplesmente consideradas. Por quanto tempo vamos ignorá-las?

Meses atrás, manchetes de grandes jornais davam conta de que cem mil presos iam sair das cadeias da noite para o dia com a nova lei das prisões.

A fotografia de uma delegacia em Goiás nesta semana, com detentos jogados ao chão e algemados na parede por falta de vagas dá bem o retrato do embuste que foi a criação dessa expectativa.

Mas o discurso do medo teve lá a sua serventia. Como diz o escritor Mia Couto, “Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas”.

Esse discurso elevado propositadamente à enésima potência tem servido para legitimar, se é que o verbo pode se adequar a hipóteses tão dramáticas, a política de ordem e disciplina que vem pouco a pouco se instalando em corações e mentes.

A forte repressão, policial e jurídica, à marcha da maconha; a tropa de choque contra estudantes na USP; a polícia na linha de frente da saúde pública, na Cracolândia; o abrupto despejo de milhares de almas em Pinheirinho.

Como drogados, estudantes rebeldes, famílias inteiras foram submetidas a doses de dor e sofrimento em nome do restabelecimento da ordem. Afinal, onde ficaria o respeito à propriedade privada e à decisão judicial?

Mas será que um terreno de um milhão de metros quadrados vazio por décadas, ao lado de milhares de pessoas que não têm onde morar, também não seria por si só uma violação da ordem?

Com o apoio de um certo terror midiático, que busca convencer que o fim do mundo está na próxima esquina, as políticas de estado vão sendo paulatinamente subordinadas a decisões bélicas -é basicamente disso que se trata quando a PM prepara por meses a inteligência de suas intervenções.

Acontece com frequência incomum na São Paulo atual, mas não apenas nela. Militarização e repressão tem se espalhado por outros cantos do país.

A supervalorização da ordem desconsidera, sobretudo, a solidariedade, fundamento dos principais objetivos de nossa República.

Eles ainda estão lá perdidos no art. 3º, da Constituição e lidos hoje parecem pouco mais do que contos de fada: “construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos…”.

Se isso tudo que está no coração da Lei Maior não vale nada, como ensinar ao povo que a lei deve ser cumprida? Com a força e pronto.

O pior de tudo é que nossa experiência recente ensinou que a solidariedade, além de justa, produz efeitos colaterais irrenunciáveis.

As políticas de transferência de renda vitaminaram uma considerável ascensão social e revigoraram o mercado interno consumidor, importante para amortecer o peso da crise mundial.

É preciso apostar mais nas pessoas e não menos. Emancipar o povo fará do Brasil um país muito melhor -sacrificá-lo, o devolverá ao passado, não à modernidade que tanto se apregoa.

Afinal, privilegiar a ordem sem solidariedade é investir na mera dominação. Usar a polícia para tutelar a propriedade privada é coisa que se faz no país desde a escravatura. Mas a supervalorização da ordem que se vê hoje pode ir além do que o tradicional predomínio do mais forte: é um passaporte para o fascismo.

Um jornalista da Rede Record chorou em plena produção da reportagem quando viu uma criança de dois anos, chupeta na boca, sentada sobre um tijolo de sua casa despedaçada em Pinheirinho, talvez sem entender o que acontecia.

Também foi impossível ver a imagem do preso goiano deitado e algemado na parede e não se lembrar da amarra de um animal indócil.

Quiçá possamos ser um pouco reféns dessas imagens que nos perturbam e nos comovem.

Para além dos cálculos e dos códigos, dos cassetetes e dos tratores, existem vidas esperando ser simplesmente consideradas.

Por quanto tempo vamos ignorá-las?

10 Comentários sobre ….fascismo emergente esmaga a solidariedade….

  1. ropreso 1 de fevereiro de 2012 - 12:51 #

    Uma linha fina divide opinião quando se trata de criminalidade. O lado das pessoas que são furtadas, roubadas, estrupadas só pode ser de ver o crime resolvido e que isso não aconteça de novo com ele ou com outra qualquer pessoa. Se por um lado os criminosos estão com problemas dentro das cadeias, nos estamos com mais problemas fora das cadeias. Ou melhor, estamos presos em casa, com todo aparato de uma cadeia e com toda tecnológico moderno para nos defendermos de quem "mandamos" para a cadeia ou de quem ainda está solto e deveria estar na cadeia. Defender a quem estaria certo? O tempo já provou que mesmo com melhores prisões os bandidos saem e permanecem no crime.
    E, se o Estado oferece a alternativa de cuidar só de um setor da sociedade, a quem ele deve cuidar? Por que trabalhar, sofrer para chegar ao trabalho, receber pouco e com o pouco comprar um lazer e ver o que comprou, com sacrificio, ser furtado ou roubado é revoltante e doloroso demais. E perder um filho ou parente morto por um bandido que deverai estar na cadeia e não esta ou foi solto por que a prisão estava lotada? Discussão longa demais. Por último: crer hoje que o "bandido" é um problema social, sem analisar a ciência que prova que somos produto da evolução é no mínimo desprezo a uma ciência avançada. Se somos produto da evolução precisamos estudar os criminosos sob a égide da ciência e não só da sociologia. Por que o homem pode ser mau por natureza. Ou não?

  2. XAD 1 de fevereiro de 2012 - 14:49 #

    Marcelo, reparei q os primeiros parágrafos (acho que 12) estão repetidos, aparecem de novo no texto. Não sei, dá uma olhada. Abs

  3. Guilherme Scalzilli 1 de fevereiro de 2012 - 14:55 #

    A esquerda e o Pinheirinho

    Os equivocados ataques a uma suposta omissão do governo federal servem à estratégia demotucana de envolver a única instância que fez alguma coisa (mesmo que obviamente irrisória) para impedir a tragédia do Pinheirinho. Os maiores responsáveis pelo impasse foram os governos municipal e estadual. Os esforços concentrados da juíza, do prefeito e do governador buscaram justamente abortar qualquer solução negociada, criando um fato consumado que inviabilizasse o recuo e a conseqüente vitória política do Planalto. Eis por que rapidamente promoveram a bárbara destruição dos bens abandonados pelos moradores e aniquilaram os vestígios físicos da comunidade.

    A macabra disseminação de falsas estatísticas fatais apenas fortalece a idéia de que a ausência de óbitos legitimaria a operação policial. O anseio por uma catástrofe exemplar enfraquece as denúncias dos maus-tratos sofridos pelos desabrigados. Fruto da mesma cegueira oportunista, a glamorização da pobreza “insurgente” (ou a “comiseração desgraçada”) conduz a uma fantasia romântica sobre a realidade do sofrimento daquelas pessoas. A favela pode ser palco e símbolo de uma luta, mas nunca representará sequer um rascunho de solução para os problemas sociais e urbanísticos envolvidos. Foi a necessidade, e não um pretenso espírito libertário, que levou os ocupantes a se instalarem no Pinheirinho.

    Tais mistificações ajudam a esquerda a fugir de uma reflexão isenta sobre suas próprias responsabilidades na gestação do episódio. A tragédia só ocorreu porque o governo Geraldo Alckmin e seus esteios no obscuro Judiciário paulista não enfrentam uma oposição articulada e eficaz do PT, do PSB e de outros partidos da base governista federal. Se, por exemplo, as ações dos cossacos na USP ou o sepultamento do mensalão da Alesp tivessem recebido o tratamento que mereciam, a oligarquia ultraconservadora que domina o Estado guardaria pelo menos a sensação de fragilidade que advém da fiscalização externa e do constrangimento público. E pensaria duas vezes antes de cometer um absurdo como o de Pinheirinho.

    Essa é uma simples culminância de um longo processo de arbitrariedades isoladas que passaram incólumes por décadas de harmoniosa convivência entre a esquerda paulista e a hegemonia demotucana. Todos são cúmplices. E devem começar imediatamente a discutir como desfazer o ambiente de repressão e autoritarismo que já ultrapassa o nível do suportável.

    http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com/

  4. Marcelo Semer 1 de fevereiro de 2012 - 22:38 #

    XAD.

    Grato, tinha empastelado e agora já resolvi.

  5. Anônimo 2 de fevereiro de 2012 - 01:16 #

    Uma vez, em aula de Direito Constitucional dada a um grupo de Angolanos, um professor perguntou o seguinte para um aluno:
    -fulano, o que você entende por "construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades"?
    O aluno respondeu: " ora, professor,se estes são os objetivos da lei brasileira, significa que o BRASIL é um país injusto, pobre e desigual.
    A exemplo que alguém que viveu o martírio da gerra por tanto tempo, daria tudo pra ouvir do aprendiz sobre uma "sociedade livre e solidária".Quem sabe o novato em liberdade nos desse uma nobre lição…
    Att, Fabiana.

  6. EduardoCBraga 2 de fevereiro de 2012 - 14:32 #

    Enquanto essas vidas não forem organizadas em uma FORÇA POLÍTICA teram apenas a compaixão, protestos e votos de piedade.

  7. Jaques 5 de fevereiro de 2012 - 08:31 #

    Pinheirinho foi um episódio sórdido e lamentável. Que a repercussão fique na cabeça dos detentores do poder e que reconheçam poderem as leis serem distorciadas, contorcidas e aplicadas das formas mais ignóbeis mas que a verdadeira Justiça é um sentimento real, a todos acessível, e que deve preponderar. Estado forte, sim, para que a baderna não se instale, mas justo e atento aos seus deveres de prover moradias….

  8. Anônimo 7 de fevereiro de 2012 - 20:05 #

    Sempre crítico esse excesso do uso da força, empregada por policiais (civis e militares). Sou goiano, e me sinto autorizado a comentar o caso. Em Goiás, não posso afirmar no restante do Brasil, mas acredito que não mude muita coisa, as delegacias representam calvários, onde se depósito quase mortos. Digo quase mortos, porque dependendo de quem está sendo conduzido, já chega quase morto. Recentemente fui contratado para acompanhar meu cliente em uma delegacia. Cheguei ao local e não tive acesso ao cliente. Depois de tanto insistir, trouxeram-me. Perguntei como tinha ocorrido a prisão. A única coisa que soube me dizer era que tinham colocado um saco preto erm seu rosto, batido em todas as partes do corpo, e que havia desmaiado por 03 oportunidades, e ao final "encontraram" em seu poder uma trouxinha de drogas. Pronto, torturado, preso, e provavelmente condenado em primeiro grau.
    Sinceramente, não quero que criminosos sejam tratados com carinho, quero que sejam tratados com dignidade. A pena tem a função de punição. Vejo todos os dias, nas cadeias goianas presos sendo dilacerados por policiais militares, que utilizam do argumento de que preso não merece carinho, merece porrada.

    Caro Ropreso, não questiona-se o poder estatal de punir, o que se questiona é essa crescente violência empregada pelos poderes estatais. Hoje é um criminoso, amanhã pode ser qualquer um. Como li aqui, nesse blog, o artigo de um determinado blogueiro: o problema de se criar cães bravos, e que com o passar do tempo não conseguem distinguir a quem está autorizado a morder.
    Quanto ao caso Pinheirinho, entendo da mesma maneira, é preciso usar menos força policial e mais dignidade.

    Excelente artigo Dr. Marcelo Semer. Kassio Costa

  9. Anônimo 28 de maio de 2012 - 03:37 #

    Minha professora deu-nos a tarefa de fazer uma resenha-crítica sobre seu texto, e para fazer uma resenha-crítica tenho que ao menos entender o que foi escrito no texto, coisa que não aconteceu. Li inúmeras vezes e é como se cada vez me confundisse mais e mais. Também para fazer um resenha preciso ter um mínimo conhecimento no assunto, o que é pior ainda pois sou leigo neste assunto. Então como posso fazer a tarefa bem feita se a única coisa que consigo é me perguntar "o que ele quis dizer com isso?" ? Deve ser minha falta de leitura, apesar de ler bastante, que me fez não entender bulhufas de teu texto mas ajudaria se usasse uma linguagem menos formal, digo, já que se trata de um blog qualquer interessado pode vir e acessar mas será que todos vão ter o mesmo conhecimento que o do senhor para entender todos estes termos?

  10. Marcelo Semer 28 de maio de 2012 - 23:33 #

    Não sei o quanto posso ajudar, por ter justamente escrito o artigo, mas estou a vontade para debater, caso queira: marcelosemer@uol.com.br

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