Não passa de um mito, calcado no marketing da mentira, a ideia de que não houve corrupção na ditadura
Uma das grandes sandices dos saudosistas da ditadura, ou daqueles que evocam a nostalgia do que jamais conheceram, é pregar por “um golpe militar contra a corrupção”.
Nessas toscas, porém não ingênuas, chamadas para uma marcha com Deus, família, liberdade e canhões, a ideia se repete com uma irritante constância.
Mas um golpe militar jamais será contra a corrução. O golpe é a própria corrupção.
Não bastasse o fato de corromper a ideia em si do estado de direito (que cede ao estágio da força bruta), e ser, portanto, uma violência contra a democracia, a ditadura por essência se opõe aos princípios mais básicos do combate a qualquer corrupção: transparência e igualdade.
Nada disso existe quando o poder é absoluto.
Não passa de um mito, construído pelo marketing da mentira e pela estratégia da ocultação, a ideia de que não houve corrupção na ditadura.
Pequenas notícias, grandes fortunas.
Quantos não foram os empreendedores pró-militares que enriqueceram, enquanto o país se endividava brutalmente?
O que não havia na ditadura era liberdade da imprensa para divulgar, nem a de órgãos de controle para averiguar ilícitos.
A ideia de república pressupõe o controle do poder; a ditadura, ao revés, se baseia no uso do poder como controle.
Reportagem recente do jornal O Globo -insuspeito no assunto, porque foi um dos mais persistentes no apoio aos militares- aponta que a Comissão Geral de Investigação criada pela ditadura arquivou inúmeras denúncias contra amigos do regime ao mesmo tempo em que se detinha em vasculhar a vida de seus opositores.
Enquanto arquivos pessoais de Leonel Brizola e João Goulart eram devassados (sem sucesso) pelos investigadores atrelados ao governo, denúncias contra José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, por exemplo, foram simplesmente arquivadas sem qualquer tipo de apuração.
Os amigos do poder tinham mais que direitos; os inimigos, bem menos do que a lei.
Pode-se encontrar violência, privilégios e obediência pelo medo nos desvãos da nossa ditadura.
Mas não uma polícia isenta, um Ministério Público com autonomia ou a plena independência judicial.
A promiscuidade entre empresários e membros do regime militar é, aliás, um dos pontos que tem chamado a atenção da Comissão Nacional da Verdade recentemente. Já foram levantados vários apontamentos de visitas de representantes de entidades de industriais a locais de repressão.
O documentário Cidadão Boilesen (2009, direção Chaim Litewsky) aborda o tema com farto material histórico, relatando o subsídio empresarial para a manutenção de centros de tortura –uma espécie de parceria público privada para uma operação ilegal, ao mesmo tempo no coração e à margem do sistema.
Alguns aderiram à promiscuidade como forma de não serem alijados de licitações ou grandes contratos; outros justamente para poder se aproveitar das oportunidades que se abriam com essas ligações escusas -o documentário avoluma dados sobre as conexões entre o grupo do executivo e a Petrobrás.
Com a aproximação do aniversário de cinquenta anos do golpe militar, que mergulhou o país em mais de duas décadas de sombras, proliferam-se manifestações nostálgicas, estimuladas pelo negacionismo de historiadores reacionários.
A ditadura, de fato, tinha menos paciência com rebeliões de políticos aliados. E nenhuma tolerância contra os inimigos do regime.
Mas daí não resulta qualquer mérito. Ao revés, a intolerância do poder foi devastadora.
Muitas famílias acabaram destroçadas. E as marchas que vieram a partir do golpe não desaguaram nem em Deus nem nas liberdades. Apenas espalharam violência.
Há quem esteja predestinado a repetir a história como farsa. Mas há muita gente ainda de olho na tragédia.
Sempre fico espantado ao verificar que os textos do teu blog quase nunca tem comentários. São sempre oportunos, bem escritos e fundamentados. Lúcidos. Essa maluquice de "marcha com a família" não juntou gente suficiente para encher uma ala de loucos num hospício. Então por que o interesse de manter o fato na mídia? Todos sabemos a resposta. E a falta de comentários, (pró ou contra), demonstra, acho eu, o renascimento de um sentimento comum naquela época: o medo. A classe que finge gostar da democracia, (sob o paradoxo de respeitarem as regras democráticas, desde que não tenham que abrir mão do poder, pois se reconhecem no espelho como faróis do mundo), é a mesma que aceitou a liberdade do escravo com a condição de que ele nunca se tornasse um cidadão e continuasse na senzala, como bem explicou Machado de Assis, no conto do "bom Pancrácio". Um abraço
Perfeito, de tão perfeito, não me sobram instrumentos gramaticais para escrever além do que escrevi. Obrigado.
Perfeito, de tão perfeito, não me sobram instrumentos gramaticais para escrever além do que escrevi. Obrigado.
A população é muito desinformada. A classe média repete bordões falsos, como "os militares é que podem dar um jeito nesse país", "só ditadura pra acabar com essa baderna", e por aí vai. A luta de classes existe. Ditaduras servem a uma classe, a elite.
Só faltou dar nome aos bois.