….o reacionário está na moda….

 
 
Tamanha reação do conservadorismo extremo pode indicar que o país anda no caminho certo. 
 
 
 
 
Não foi surpresa que logo após o comentário em que deu status de legítima defesa a justiceiros, a jornalista Rachel Sheherazade tenha tido a oportunidade de escrever artigo no espaço mais nobre de um grande jornal.
 
Foi vociferando a altos brados, contra todas as formas de ‘esquerdismo’, sem sutilezas nem decoros, que Reinaldo Azevedo ganhou o status de colunista nesse mesmo diário. 
 
Lobão foi guindado a uma revista semanal depois que minimizou a tortura dos anos de chumbo, desprezando quem se disse vítima por ter tido “umas unhazinhas arrancadas”. 
 
Diogo Mainardi pulou da revista para a TV a cabo, apelidando semanalmente o presidente de anta.
 
Até humoristas que se orgulham de ser politicamente incorretos, sobretudo com o mais vulnerável, vêm emplacando programas próprios na telinha.
 
Se alguém ainda tinha dúvidas, elas estão sendo dissipadas: o reacionário está definitivamente na moda.
 
Não há veículo da grande imprensa que não tenha hoje um ou mais comentaristas dispostos a tirar o espectador da ‘zona de conforto’, e destilar o mais profundo catastrofismo, enquanto estimulam a ira e desprezam a dignidade humana em nome de uma hipotética Constituição de um único artigo: a liberdade de expressão absoluta.
 
Tamanha reação do conservadorismo extremo, pelos novos ícones da classe média, poderia indicar que, de alguma forma, o país anda no caminho certo. 
 
Nenhuma redução de desigualdade, seja ela econômica, social, racial, de gênero ou orientação sexual, passa incólume à reação. Tradição e privilégios jamais se rendem sem resistência.
 
Mas há dois componentes neste jogo que complicam a equação e nos aproximam da intolerância.
 
Primeiro, o fato de que o catastrofismo sem limites, o derrotismo por princípio e o esforço de detonar o Estado de todas as formas e sob todas as forças, produz uma inequívoca sensação de que estamos sempre à beira do abismo. Mesmo quando evoluímos.
 
A estabilidade política é desprezada, sufocada pela ideia que resume toda política em corrupção –mas que, inexplicavelmente, considera o corruptor apenas uma vítima do sistema que patrocina.
 
Todo mal reside nos políticos, nos partidos, enfim no Estado –nunca no mercado ou nos mercadores.
 
A maior autonomia dos órgãos de investigação e a independência dos operadores do direito, somadas ao fim da censura, têm ligação direta com esse mal-estar da liberdade: a democracia não é pior porque produz mais monstros, apenas mais incômoda porque é impossível escondê-los.
 
O derrotismo desproporcional, que remete toda e qualquer política à vala comum, acaba por conferir a violência foros de alternativa.
 
A criminalização da política é, assim, uma poderosa vitamina da intolerância. E seus responsáveis são justamente aqueles que mais bradam contra a violência que ao mesmo tempo estimulam.
 
Mas não é só.
 
A política também tem perdido seu prestígio por estar sendo sepultada pelo fator eleitoral. 
 
O pragmatismo sem freios destroça ideologias, pensamentos e valores e é um consistente obstáculo ao avanço civilizatório. Quando o poder é mais relevante que a política, os fins sempre servem para justificar meios.
 
A rendição à pauta religiosa, de governos e oposições, é um sintomático reflexo desse excesso de pragmatismo que comprime o espaço republicano.
 
A submissão rala à pauta punitiva, que ameaça inserir o país na lógica de um Estado policial, é outro indício. Como o instrumento penal é sempre seletivo, mais repressão significará mais desigualdade. 
 
Esvaziar a política nunca é uma tarefa prudente, menos ainda quando o canto da sereia do reacionarismo está cada vez mais afinado.  
 
Há 50 anos, nossa democracia foi estuprada por militares que deram um golpe, civis que o financiaram e reacionários que o justificaram, inclusive e fortemente na imprensa. 
 
Que a efeméride, ao menos, nos mantenha vigilantes.

7 Comentários sobre ….o reacionário está na moda….

  1. McCury 20 de fevereiro de 2014 - 15:29 #

    Perfeito. Perspicaz e lúcido, como sempre. Vi, com entusiamo, que esse texto foi replicado por alguns veículos da mídia alternativa virtual, feliz em saber que sua relevante mensagem está sendo divulgada.

  2. Contribuinte 21 de fevereiro de 2014 - 21:44 #

    Cara! continue assim logo logo você terá um patrocínio da Caixa ou do Banco do brasil.

  3. Marcelo Semer 22 de fevereiro de 2014 - 10:19 #

    Não se preocupe, Contribuinte. Essas empresas gastam o grosso de suas verbas publicitárias nos veículos em que o reacionário está na moda…

  4. Anônimo 22 de fevereiro de 2014 - 16:29 #

    O que seria o "reacionário" do autor?

    Seriam pessoas que defendem ditaduras?

    Se for está a "acusação", seria interessante umas provinhas?

    Ou reacionário seria só alguém que você discorda, e ainda teria suas visões políticas dentro do campo da ação democrática?

    Ou Sarney seria um elemento para definir o seu conceito aberto? Com Sarney reacionário. Sem, não.

    Gostei do termo "dignidade humana".

    Cuba desprezaria a "dignidade humana"? E quem daqui não despreza Cuba tb desprezaria "dignidade humana"?

    Os fatos adequados à visão de Mundo é uma linha arriscada.

    A Carta Capital seria "grande imprensa"? Ela teria um reacionário? Seria ela aberta ao outro lado?

    Qual seria o limite aceitável para se discordar do PT na grande imprensa sem ser errado – "reacionário"?

    "Nenhuma redução de desigualdade, seja ela econômica, social, racial, de gênero ou orientação sexual, passa incólume à reação. "

    Queria ver vc achar uma crítica deles à inflação, ao plano real.

    Queria ver uma crítica às "melhoras no ensino".

    Gostei do seu jeito inquisidor divino, como se falasse "estão errados e pronto!", e tudo bem.

  5. Anônimo 22 de fevereiro de 2014 - 19:07 #

    Prezado Anônimo das 13:29:

    Mas vc não sabe que esse é o nosso Semmer, retrato da esquerda?
    "Reacionário é tudo aquilo que vai contra à minha ideia do *eu* acho ser o melhor para o povo, mesmo que o povo discorde". rs

  6. maria celeste cirqueira córdova 23 de fevereiro de 2014 - 14:15 #

    "Anônimo" [perfeita a identidade! Kkk], você tem espelho em casa? Dê uma olhada lá. Eis a resposta à sua primeira pergunta.
    Quanto às demais perguntas lançadas em seu comentário… se você não é o militar que sonha com o golpe (como é mesmo o nome que usam? revolução.), nem o civil que faz caixa (caixa 2, inclusive e de preferência com o imposto sonegado/inadimplido) para bancar o golpe, você é o reaça mencionado no artigo do Marcelo Semer, com certeza!
    Quanto às provas de que o artigo te retrata? Bemmmm…basta ler seu comentário. Diante de alguém que defende democracia e garantias fundamentais mínimas, sua ira é maior que seus argumentos!

  7. Carlão Azul 26 de fevereiro de 2014 - 19:00 #

    Ótimo texto. Perfeito mesmo.
    Concordo com tudo.
    Parabéns

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