….quando o tempo nos faz estrangeiros….


Crítica de Certas Canções no Terra Magazine, por Marcio Sotelo Felippe: livro reproduz arquétipo do exílio, em São Paulo, nos anos 80, e revisita a esperança compartilhada das Diretas-Já

As pessoas sentem de modo diferente, cada um a seu jeito, no entanto em algum momento sentem. Uma vaga angústia, um leve desconforto, uma sensação de estar exilado no espaço ou no tempo: eu não sou daqui, ou meu tempo não é este. É um arquétipo, no sentido de Jung – uma experiência imemorial, transmitida e acumulada geração após geração, que habita nosso inconsciente e, entre outras funções, fertiliza o talento de filósofos e artistas.

Talvez seja adequado chamá-lo de arquétipo do exílio, ou, talvez, do estrangeiro. No plano erudito, filosófico e religioso, para lembrar só alguns casos, ele está no mito platônico daquele mundo em que contemplamos, antes da existência, as idéias, as formas perfeitas; no paraíso perdido de quase todas as religiões; na queda dos anjos; no estado de natureza de Rousseau, aquele antes da propriedade; no culto à natureza do Romantismo, etc.

Marcelo Semer, Juiz de Direito, ex-jornalista, ex-Presidente da Associação Juízes para a Democracia, estréia na literatura com Certas Canções (Editora 7 Letras), dando ao arquétipo do estrangeiro no tempo o conteúdo de sua experiência de estudante do Largo São Francisco nos anos 80.

Nós outros, que também vivemos aquele tempo, somos inteligentemente conduzidos por Semer à sensação de exílio das madrugadas no Riviera, em que resolvemos, com muita cerveja, o destino da República; ao exílio das Diretas Já, aquela esperança com óculos compartilhada com 800 mil pessoas no Anhangabaú; ao exílio da crença nas figuras políticas daqueles palanques, nas quais, depois de mais de vinte anos, contemplamos apenas vulgares projetos pessoais de poder; ao exílio dos amigos que sumiram no mundo; ao exílio da paixão duplamente impossível, porque sempre há um ente amado que não podemos ter naquele tempo dourado, e se tivéssemos hoje, o tempo já não seria mais aquele dourado.

O arquétipo do exílio é pródigo em clássicos na literatura e no cinema. A “madeleine” da Busca do Tempo Perdido (claro, o paulistano Semer põe uma pizza fazendo mais ou menos as vezes de “madeleine”) e o “rosebud” de Cidadão Kane são lembranças obrigatórias. O texto de Semer me trouxe outras recordações, mais próximas de nós, e às vezes, injustamente não tão valorizadas: “Loucuras de Verão” (“American Grafitti”), “Nosso Amor de Ontem” (“The Way We Were”), e “Nós Que Nos Amávamos Tanto” (“C’eravamo Tanto Amati”).

Em cada uma delas há um tema que também habita o diário político-sentimental de Semer. Na primeira, os anos dourados do mito Kennedy, destroçados pelo próprio na Guerra do Vietnã, tal como vimos destroçada a talvez ingênua esperança que acalentávamos no grito de “diretas já”. Na segunda, a militância esquerdista em um mundo que teima em não mudar, convivendo com o amor impossível. Na terceira, os amigos que se amavam tanto, golpeados pelo tempo e pelas agruras da vida.

Semer não elabora um enredo específico e não providencia uma resolução dramática. Pouco a pouco, o texto, bem humorado e elegante, meio “a clef”, meio diário (apesar da minha implicância com o termo, vamos lá, pós-moderno, pela impossibilidade de se identificar um gênero) nos apresenta o seu mundo, seus amigos, suas mulheres e suas canções, entre versos da MPB que espalha pelo texto.

A habilidade do narrador vai nos tornando amigos de seus amigos, e quando nos damos conta estamos na turma dele ou, talvez, ele é que esteja naquela nossa turma que também ficou em outro tempo. Tanto faz. Esta comunhão com o leitor prova que o talento de Semer apareceu na habilidade em reconstruir, com os elementos de sua própria trajetória, o arquétipo do exílio que está em nosso inconsciente. Justamente aquele que nos lembra, em certos momentos, que todos temos que nos sentir estrangeiros neste mundo torto.

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