Senta que lá vem história: os famosos quartos de empregada de Paris, conhecidos como chambres de bonnes, estão com os dias contados. Aqueles cômodos minúsculos, que por décadas foram a porta de entrada de estudantes e viajantes na capital francesa, agora sofrem com calor extremo e podem se tornar ilegais no futuro.
Projetados há mais de dois séculos para abrigar os serviçais das famílias ricas dos principais bairros, esses espaços não foram feitos para o clima atual. Segundo estudo de 2024 da agência Paris Atelier d'Urbanisme (APUR), o interior desses quartos registra temperaturas 10ºC superiores às áreas externas em dias de calor acima de 40ºC.
Quem vive essa realidade na pele é o russo Anatoly Novikov, de 23 anos, estudante do Instituto Politécnico de Paris. Ele mora em um quarto de nove metros quadrados, do tamanho de uma vaga de garagem, no bairro de Notre-Dame-des-Champs. "Acho que celas de prisão são maiores. Outras pessoas não aguentariam aqui; eu consigo. Estou gostando da minha sobrevivência", diz ele, que paga 700 euros por mês.
Bilal Guénanain, estudante de 24 anos da Bretanha, também encara os seis lances de escada diários para chegar ao estúdio de 550 euros perto da Champs-Élysées. "A gente não vê isso em 'Emily em Paris'", brinca. A freelancer Emilie Reh, de 23 anos, que deixou Nova York para viver em Paris, divide banheiro e dorme em um quarto quente, mas ainda acha charme estar em uma ótima localização.
Segundo o INSEE, o instituto nacional de estatísticas da França, cerca de 55 mil pessoas moram nos chambres de bonne em Paris. Em 2011, a APUR apontou que aposentados e desempregados representavam 20% dos ocupantes acima de 60 anos. Agora, com o calor, muitos não conseguem se mudar por falta de dinheiro.
Dominique Naert, diretor do programa de mestrado em renovação com eficiência energética da École Nationale des Ponts et Chaussées, avalia que será ilegal morar nesses locais. O órgão estatal Architectes des Bâtiments de France já trabalha para adaptar os quartos preservando as fachadas históricas. Naert lembra que o problema não é só de Paris: Bordeaux, Roma, Madri, Berlim e Nova York enfrentam o mesmo legado do século XIX. moradia estudantil na Europa
A internet não perdoa, mas a gente ri junto: enquanto alguns sonham com a Paris dos filmes, quem mora lá sabe que o charme tem preço, e o calor também.