EUA tentaram limitar capital externo em minerais críticos do Brasil
"Precisamos de uma parceria estratégica para garantir a segurança da cadeia de suprimentos." Foi com esse discurso que diplomatas americanos sentaram à mesa com o governo brasileiro. Traduzindo o que o palco quis dizer: os EUA querem que o Brasil feche a porteira para a China nos minérios que alimentam carros elétricos e iPhones. E não estão pedindo, estão tentando limitar capital externo em minerais críticos do Brasil por meio de pressão bilateral.
Os EUA tentaram limitar capital externo em minerais críticos do Brasil. A proposta, apresentada em reuniões do Conselho de Comércio e Investimentos Brasil-EUA em 2025, sugeria que o Brasil adotasse mecanismos de controle de investimento estrangeiro em setores considerados estratégicos, com lítio, nióbio e terras raras no topo da lista. O governo brasileiro, até o momento, não cedeu.
O que os EUA querem com os minerais críticos brasileiros
Os minerais críticos são a nova gasolina. Lítio para baterias, nióbio para ligas metálicas, terras raras para ímãs de turbinas eólicas e mísseis. O Brasil tem a maior reserva de nióbio do mundo e uma das maiores de lítio, com potencial para se tornar player central na transição energética. Os EUA, que dependem da China para 70% do processamento de terras raras, querem diversificar suas fontes.
Segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS), o Brasil detém 16% das reservas globais de nióbio e 8% de lítio. O dado explica o apetite americano.
Promessa de palco, entrega de gaveta
O discurso americano fala em "parceria" e "segurança mútua". A prática é mais direta: durante a visita do secretário de Comércio dos EUA ao Brasil em maio de 2025, a delegação apresentou um documento interno sugerindo que o Brasil adotasse "mecanismos de triagem de investimento estrangeiro" similares aos do CFIUS americano, o comitê que barra aquisições chinesas nos EUA.
O Brasil respondeu com um sonoro "não obrigado". O Ministério de Minas e Energia emitiu nota afirmando que "o Brasil mantém sua política de atração de investimentos sem discriminação por origem".
O jogo chinês na mesa
A China não é coadjuvante nessa história. Empresas chinesas como a Ganfeng Lithium e a BYD já investem em projetos de lítio no Vale do Jequitinhonha (MG). A CMOC Group, chinesa, comprou a mineradora de nióbio da Anglo American em 2016. Dados da Agência Nacional de Mineração mostram que 12% dos processos minerários em terras raras estão em mãos de capital chinês.
Para Pequim, a pressão americana é um movimento previsível. Para Brasília, é um dilema: ceder aos EUA e perder investimento chinês, ou manter portas abertas e irritar Washington.
O que o Brasil ganha e perde
Ganhos potenciais
- Soberania na política de investimentos
- Acesso a tecnologia americana de processamento de minerais
- Possibilidade de acordos comerciais mais amplos
Riscos concretos
- Perda de investimento chinês (estima-se US$ 5 bilhões em projetos de lítio até 2030)
- Isolamento em um mundo cada vez mais bipolar
- Falta de capacidade de processamento nacional (o Brasil exporta minério bruto e importa baterias)
Segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), o Brasil processa menos de 5% do lítio que extrai. O restante vai para China e Europa.
A reação do mercado e da indústria
O mercado reagiu com cautela. Ações de mineradoras brasileiras com capital chinês, como a Sigma Lithium (listada na Nasdaq), caíram 4% no dia seguinte à notícia da pressão americana. Já a CBMM, controladora do nióbio brasileiro, manteve-se neutra, seu controle é brasileiro, mas vende 60% da produção para a China.
Empresários do setor veem a movimentação com ceticismo. "Os EUA querem nosso minério, mas não querem pagar o preço de mercado nem construir refinarias aqui", disse um executivo do setor, sob condição de anonimato.
O veredito sem reverência
No fim, os EUA tentaram limitar capital externo em minerais críticos do Brasil, mas o Brasil não comprou a briga. O governo Lula manteve a política de não discriminação, enquanto negocia acordos bilaterais com ambos os lados. A pergunta que fica: até quando o Brasil conseguirá equilibrar esse jogo sem tomar partido?
Perguntas Frequentes
Por que os EUA querem limitar capital externo em minerais críticos do Brasil?
Para reduzir a dependência chinesa de minerais essenciais para tecnologia e defesa.
O Brasil cedeu à pressão americana?
Não. O governo brasileiro manteve a política de portas abertas para investimento estrangeiro.
Qual o papel da China nessa disputa?
A China é a maior investidora em projetos de lítio e nióbio no Brasil, além de processar a maior parte da produção.
Quais minerais são considerados críticos?
Lítio, nióbio, terras raras, cobalto, grafita e silício metálico.
O Brasil pode processar seus próprios minerais?
Atualmente, o Brasil processa menos de 5% do lítio que extrai, exportando o restante como matéria-prima.