A frase saiu com aquele peso de comunicado oficial: a segurança de Meca era uma "linha vermelha". Traduzindo o que o palco quis dizer: alguém precisa explicar por que um drone chegou perto demais de onde não deveria.
Os houthis do Iêmen negaram nesta quarta-feira (16) ter como alvo a cidade sagrada de Meca. A negativa veio depois que a Arábia Saudita afirmou ter interceptado um drone houthi ao sul do local na noite de terça-feira (15).
O que mudou, em resumo: a coalizão liderada pela Arábia Saudita diz que suas defesas aéreas destruíram o drone antes que ele entrasse no espaço aéreo proibido sobre Meca. Já o grupo iemenita sustenta que a mira era outra.
O porta-voz militar houthi, Yahya Saree, afirmou que as operações do grupo tinham como alvo instalações petrolíferas e bases militares sauditas, longe dos locais sagrados. É a versão de quem lançou.
Do outro lado, o porta-voz da coalizão militar liderada pela Arábia Saudita no Iêmen, Turki al-Malki, disse em comunicado que o drone foi interceptado na noite de terça-feira e classificou o episódio como a segunda tentativa dos houthis, grupo apoiado pelo Irã, de atingir Meca, após o lançamento de um míssil balístico em julho de 2017.
Meca abriga alguns dos locais mais sagrados do Islã e é o ponto central da peregrinação anual do Hajj. Por isso, al-Malki afirmou que a segurança da cidade era uma "linha vermelha".
O ataque ocorre após uma semana de investidas de combatentes houthis alinhados ao Irã, que arrastaram a Arábia Saudita ainda mais para o conflito.
Aqui vale a distinção que o marketing de guerra costuma embaralhar: negar o alvo não é o mesmo que negar o lançamento. Os houthis não disseram que o drone não existiu; disseram que o destino era outro. A coalizão, por sua vez, não apresentou a rota. Cada lado entrega a versão que lhe convém, e o público fica com a promessa de palco, não com a entrega de gaveta.
O que de fato muda é o precedente. Se a leitura saudita se sustentar, este é o segundo episódio em que Meca entra no radar de um lançamento houthi, oito anos depois do míssil de 2017. Se a leitura houthi se sustentar, é mais um drone perdido no caminho entre a base e o alvo real.
Nos dois cenários, a linha vermelha continua sendo citada. Resta saber quem a enxerga primeiro.