O ambiente de juros elevados no Brasil aumenta o custo do crédito rural e pressiona com mais intensidade os produtores que atuam como pessoa física, segundo estudo do Rabobank. A análise mostra que a transmissão da política monetária para o campo ocorre principalmente pelo custo do financiamento, mas o efeito sobre a inadimplência depende também da renda do setor e dos preços das commodities.
O canal de transmissão existe, mas não age de forma uniforme. Produtores pessoa física são mais expostos aos juros, enquanto as empresas têm maior proteção por causa da participação de linhas direcionadas e subsidiadas, incluindo operações vinculadas ao Plano Safra.
"Os choques monetários elevam os juros do crédito rural e aumentam a inadimplência com maior intensidade entre produtores rurais pessoa física", diz o texto do economista-chefe do Rabobank para a América do Sul, Mauricio Une, e do economista Renan Alves. Após o choque, a inadimplência de pessoas físicas aumenta cerca de 0,1 p.p. entre seis e doze meses, enquanto as concessões para pessoas jurídicas avançam 0,37 p.p. após seis meses.
Intitulada "Além do Plano-Safra: Crédito Rural sob Aperto Monetário", a análise usa dados do Banco Central e do próprio Rabobank. Nos ciclos de alta da Selic, as taxas do crédito rural acompanham a taxa básica. Entre 2021 e 2023 e entre 2024 e 2025, houve aumento significativo das taxas: para as pessoas jurídicas, os juros chegaram perto ou acima de 14% ao ano, enquanto as taxas para pessoas físicas subiram menos, mas também pressionaram.
A inadimplência, porém, não reage de forma automática. Entre as empresas, houve um comportamento atípico de 2019 a 2021, quando a inadimplência chegou perto de 6% ao ano antes de recuar para níveis próximos de zero, influenciada pelas medidas excepcionais da pandemia. Entre os pessoa física, a alta foi gradual e acelerou entre 2024 e 2026, chegando a aproximadamente 7% ao ano.
O preço das commodities funciona como amortecedor. Em 2013-2014 e 2021-2022, soja e milho valorizados sustentaram o caixa do produtor e seguraram a inadimplência, mesmo com juros altos. No ciclo de 2024-2025, a combinação ficou menos favorável: juros elevados, preços de soja e milho em queda e fertilizantes ainda caros. Resultado: receita menor, crédito mais caro e inadimplência em alta, principalmente entre pessoa física.
"Juros elevados, isoladamente, não implicam deterioração relevante quando preços agrícolas sustentam o caixa do produtor." Para as empresas, a forte presença de linhas direcionadas reduz a sensibilidade à Selic. Para as pessoas físicas, o efeito é maior: um choque de juros eleva a inadimplência em cerca de 0,1 p.p. entre seis e doze meses. Nas concessões, a volatilidade é alta, com crescimentos acima de 60% ao ano em 2021 e 2024, puxados por diferentes segmentos. O Rabobank conclui que o aperto monetário não deteriora o crédito rural de forma generalizada, mas aumenta a vulnerabilidade de segmentos específicos. crédito rural


