Senta que lá vem história: a China, que já domina o mercado de terras raras há décadas, apertou o cerco. Em dezembro de 2024, Pequim anunciou restrições à exportação de minério bruto e tecnologias de refino de terras raras, ampliadas em maio de 2025 com novas licenças obrigatórias. O impacto? Uma cadeia global avaliada em US$ 6,5 trilhões, que abrange de smartphones a turbinas eólicas, agora respira por aparelhos.
O que está em jogo com as restrições chinesas a terras raras?
As terras raras são 17 elementos metálicos essenciais para ímãs de neodímio (usados em motores elétricos e geradores eólicos), baterias, lasers, telas de smartphones e sistemas de defesa. A China, segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS), responde por 60% da produção global de minério e impressionantes 90% do refino. Ou seja: mesmo que outros países extraiam o minério, quem transforma em material utilizável é, majoritariamente, a China.
Em 2024, a produção chinesa de terras raras atingiu 240 mil toneladas métricas, contra 43 mil dos Estados Unidos e 8 mil da Austrália (USGS, 2025). O país também detém 37% das reservas globais, com 44 milhões de toneladas métricas. Isso dá a Pequim uma alavanca geopolítica que poucos recursos naturais oferecem.
Setores na linha de frente
O mercado global de ímãs de neodímio, avaliado em US$ 15 bilhões em 2024, deve saltar para US$ 30 bilhões até 2030 (Adamas Intelligence). Esses ímãs são o coração de veículos elétricos, turbinas eólicas e discos rígidos. Sem terras raras, a produção de um Tesla ou de uma turbina da Siemens Gamesa emperra.
No setor de defesa, sistemas de mísseis, radares e visão noturna dependem de terras raras como ítrio e lutécio. O Pentágono já classificou o acesso a esses materiais como "risco crítico" em relatório de 2024. Já a energia limpa: cada turbina eólica offshore usa cerca de 600 kg de ímãs de neodímio. Com a meta global de triplicar a capacidade eólica até 2030 (AIE, 2025), a demanda por terras raras só cresce.
O que a China realmente restringiu?
Em maio de 2025, o Ministério do Comércio chinês incluiu as terras raras na lista de "tecnologias e produtos de exportação proibida ou restrita". Na prática, isso significa:
- Proibição de exportar minério bruto de terras raras sem licença especial.
- Restrição a tecnologias de separação e refino, justamente o gargalo global.
- Exigência de contratos de longo prazo com compradores estrangeiros, sujeitos a revisão anual.
A medida não é inédita: em 2010, a China já havia cortado quotas de exportação, levando os preços do neodímio a dispararem 1.000% em seis meses. Desta vez, porém, o escopo é maior e o contexto geopolítico mais tenso, com sanções ocidentais a semicondutores chineses e tarifas comerciais.
Quem pode substituir a China?
Fora da China, os maiores projetos de terras raras estão nos Estados Unidos (Mountain Pass, da MP Materials), Austrália (Lynas Rare Earths) e Brasil (Serra Verde, em Minas Gerais). A MP Materials produziu 42 mil toneladas de concentrado de terras raras em 2024, mas ainda envia 100% para a China para refino. A Lynas, que refina na Malásia, responde por apenas 10% da oferta global de ímãs.
O Brasil tem a terceira maior reserva do mundo (21 milhões de toneladas), mas produção irrisória: menos de 1% do total. A Serra Verde, em operação desde 2024, deve atingir 5 mil toneladas anuais até 2027, ainda insuficiente para fazer diferença no curto prazo.
A reciclagem de terras raras é outra aposta. Empresas como a norte-americana Noveon Magnetics e a japonesa Hitachi Metals já recuperam ímãs de discos rígidos e motores. Mas o volume reciclado hoje equivale a menos de 5% da demanda global (Adamas Intelligence).
Impacto econômico: US$ 6,5 tri em jogo
O valor de US$ 6,5 trilhões não é um chute. Ele corresponde ao mercado global de bens e serviços que dependem diretamente de terras raras, segundo estimativa do Departamento de Energia dos EUA (DOE, 2025). Isso inclui:
- Eletrônicos de consumo (smartphones, laptops, TVs): US$ 1,2 tri
- Veículos elétricos e baterias: US$ 1,8 tri
- Energia eólica e solar: US$ 900 bi
- Defesa e aeroespacial: US$ 400 bi
- Equipamentos médicos (ressonância magnética, lasers): US$ 200 bi
Com as restrições, o preço do óxido de neodímio já subiu 35% entre janeiro e junho de 2025, para US$ 140/kg (Asian Metal). O óxido de disprósio, usado em ímãs de alta temperatura, saltou 52% no mesmo período.
O que esperar para o resto de 2026?
Analistas do Banco Mundial projetam que, sem novos projetos de mineração e refino fora da China, o déficit global de terras raras pode chegar a 30% da demanda em 2027 (World Bank, Critical Minerals Outlook, 2025). A União Europeia já listou as terras raras como "matéria-prima crítica" e aprovou subsídios de € 1,5 bilhão para reciclagem e prospecção.
No curto prazo, a estratégia mais viável é a estocagem. Empresas como a japonesa Toyota e a alemã Bosch aumentaram seus estoques de ímãs em 60% desde o anúncio das restrições. Mas estocar não resolve o problema estrutural: a dependência do refino chinês.
terras raras no Brasil: o que muda para a mineração nacional
Perguntas Frequentes
O que são terras raras?
São 17 elementos metálicos (como neodímio, disprósio, ítrio) essenciais para ímãs permanentes, baterias, lasers e componentes eletrônicos. Apesar do nome, não são raras na crosta terrestre, mas difíceis de concentrar e refinar.
Por que a China domina o mercado de terras raras?
A China tem as maiores reservas (37% do total global), mão de obra barata e, sobretudo, domínio das tecnologias de separação e refino, um processo químico complexo e poluente que poucos países dominam.
Quais setores serão mais afetados pelas restrições?
Veículos elétricos, energia eólica, defesa, eletrônicos de consumo e equipamentos médicos. Todos dependem de ímãs de neodímio ou de componentes que usam terras raras.
O Brasil pode se beneficiar das restrições chinesas?
Sim, mas a curto prazo não. O Brasil tem a terceira maior reserva, mas produção insignificante. Projetos como a Serra Verde (MG) podem crescer, mas levarão anos para suprir a demanda global.
A reciclagem de terras raras é viável?
Sim, mas ainda em escala pequena. Hoje, menos de 5% das terras raras são recicladas. O custo ainda é alto, mas com subsídios e aumento dos preços, a reciclagem deve ganhar tração até 2030.
As restrições chinesas são definitivas?
Não necessariamente. A China pode usar as restrições como ferramenta de negociação geopolítica. Em crises anteriores, Pequim flexibilizou quotas após pressão internacional. Mas a tendência de longo prazo é de controle mais rígido sobre recursos estratégicos.