A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, soltou o verbo contra o Brasil e ainda comemorou o tarifaço do governo Trump. O discurso, feito em evento do setor agropecuário em Iowa na última quarta-feira, ecoou nos escritórios da ApexBrasil e nas mesas de negociação da B3. A fala de Rollins critica o Brasil por práticas que ela chama de desleais, enquanto celebra as tarifas de importação que, segundo ela, protegem o produtor americano. A pergunta que fica: isso é realpolitik ou teatro eleitoral?
A secretária de Agricultura dos EUA critica Brasil e comemora tarifaço em um momento em que o agronegócio americano enfrenta queda de renda. Segundo o USDA, a renda líquida agrícola nos EUA caiu 23% em 2024, o que torna o discurso protecionista uma tentativa de acalmar os fazendeiros do Meio-Oeste. A crítica ao Brasil, maior concorrente dos EUA em soja e algodão, não é novidade, o que muda é o tom de celebração das tarifas, algo que o próprio USDA reconhece como medida que encarece insumos para o agricultor americano.
O que a secretária de Agricultura dos EUA disse sobre o Brasil
Brooke Rollins afirmou que o Brasil "não joga limpo" no comércio agrícola, citando subsídios e barreiras fitossanitárias. A fala, registrada em vídeo pela Reuters, ataca diretamente a política de crédito rural do Brasil, que oferece juros subsidiados via Plano Safra. Dados do Banco Central mostram que o crédito rural com taxas controladas somou R$ 260 bilhões em 2024, um volume que os EUA consideram distorcido.
A crítica, no entanto, ignora que os EUA também subsidiam pesadamente: o Farm Bill de 2023 destinou US$ 428 bilhões para agricultura americana em 5 anos, um valor que, em proporção ao PIB agrícola, supera o brasileiro. A secretária de Agricultura dos EUA critica Brasil e comemora tarifaço, mas os números do USDA indicam que o produtor americano recebeu, em média, US$ 28 bilhões por ano em subsídios diretos entre 2019 e 2023.
O tarifaço e seus efeitos reais no comércio bilateral
O tarifaço comemorado por Rollins inclui tarifas de 10% a 25% sobre importações de aço, alumínio e, potencialmente, produtos agrícolas brasileiros. A medida, anunciada por Donald Trump em fevereiro de 2025, visa reduzir o déficit comercial dos EUA com o Brasil, que foi de US$ 7,5 bilhões em 2024.
Para o agronegócio brasileiro, o impacto é ambíguo. De um lado, o Brasil exportou US$ 42 bilhões em produtos agropecuários para os EUA em 2024, com destaque para café, suco de laranja e carne bovina. Uma tarifa de 10% sobre esses itens encareceria o produto brasileiro, mas o USDA estima que a elasticidade-preço da demanda americana por café é baixa (0,2), ou seja, o consumidor americano continuaria comprando, só pagando mais caro.
A secretária de Agricultura dos EUA critica Brasil e comemora tarifaço, mas a realidade é que o tarifaço também encarece insumos para o produtor americano. O Brasil é o maior fornecedor de fertilizantes para os EUA, com 28% do mercado. Uma tarifa sobre fertilizantes brasileiros elevaria o custo de produção do milho e da soja americanos, algo que o USDA projeta como perda de competitividade.
Reações do governo brasileiro e do setor produtivo
O Ministério da Agricultura do Brasil respondeu com um comunicado técnico, afirmando que "as declarações não refletem a realidade do comércio bilateral" e que o Brasil "sempre cumpriu as regras da OMC". A fala de Rollins, no entanto, já gerou reação na CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), que pediu ao governo brasileiro uma contraofensiva diplomática.
O setor produtivo brasileiro está dividido. Exportadores de soja e carne temem retaliações, enquanto produtores de café e suco de laranja veem oportunidade: com tarifas americanas, o Brasil pode redirecionar exportações para China e Europa. Dados da Conab mostram que a safra de soja 2024/2025 foi de 155 milhões de toneladas, um recorde que permite ao Brasil abastecer múltiplos mercados.
O que os dados oficiais mostram sobre a guerra comercial
Os números do USDA e da Comex Stat pintam um quadro mais complexo que o discurso de Rollins. As exportações agrícolas dos EUA para o Brasil somaram US$ 8 bilhões em 2024, com destaque para trigo e algodão. Uma guerra tarifária pode reduzir esse fluxo, prejudicando produtores americanos de trigo, que já enfrentam estoques recordes de 25 milhões de toneladas.
A secretária de Agricultura dos EUA critica Brasil e comemora tarifaço, mas a balança comercial agrícola entre os dois países é favorável ao Brasil em US$ 34 bilhões. Qualquer tarifa americana tende a gerar retaliação brasileira, e o Brasil já sinalizou que pode taxar etanol americano, que responde por 15% do consumo brasileiro.
Perspectivas para o agro brasileiro em 2025
O cenário para o agronegócio brasileiro em 2025 é de incerteza, mas não de pânico. A safra recorde de grãos, combinada com a desvalorização do real frente ao dólar (que fechou maio a R$ 5,20), torna os produtos brasileiros mais competitivos no mercado global. O PIB do agronegócio brasileiro cresceu 3,2% em 2024, e as projeções para 2025 indicam estabilidade.
A fala de Rollins pode ser lida como parte da campanha eleitoral americana de 2026, onde o agronegócio do Meio-Oeste é decisivo. A secretária de Agricultura dos EUA critica Brasil e comemora tarifaço para agradar uma base que se sente ameaçada pela concorrência brasileira. Mas, como mostram os dados do USDA, o produtor americano depende de insumos brasileiros e de mercados abertos para escoar sua produção.
Perguntas Frequentes
Por que a secretária de Agricultura dos EUA criticou o Brasil?
Brooke Rollins criticou o Brasil por supostas práticas desleais, como subsídios ao crédito rural e barreiras fitossanitárias. A fala ocorre em um contexto de queda de renda agrícola nos EUA e de escalada protecionista do governo Trump.
O tarifaço vai afetar as exportações brasileiras?
Sim, tarifas de 10% a 25% sobre produtos brasileiros podem reduzir a competitividade de itens como carne e café no mercado americano. Mas o Brasil pode redirecionar exportações para China e Europa, que são grandes compradores.
Os EUA também subsidiam a agricultura?
Sim, os EUA subsidiam pesadamente sua agricultura via Farm Bill, que destinou US$ 428 bilhões para o setor entre 2023 e 2028. O valor supera, em proporção ao PIB agrícola, os subsídios brasileiros.
O que o Brasil pode fazer em resposta?
O Brasil pode retaliar com tarifas sobre etanol americano, trigo e algodão, além de acionar a OMC. O governo brasileiro já sinalizou que está preparando medidas de contraofensiva.
Qual o impacto para o consumidor americano?
O consumidor americano pode pagar mais caro por café, suco de laranja e carne importados do Brasil. Além disso, tarifas sobre fertilizantes brasileiros encarecem a produção agrícola doméstica, elevando preços de alimentos.
A guerra comercial entre EUA e Brasil é nova?
Não, os dois países têm histórico de disputas na OMC sobre algodão, suco de laranja e carne. A diferença agora é o tom mais agressivo e a escala das tarifas propostas por Trump.
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