Sob pressão, Lula desautoriza dragagem emergencial e El Niño ameaça Tapajós
O presidente Lula desautorizou a dragagem emergencial no rio Tapajós, mesmo com risco de seca extrema pelo Super El Niño. A decisão foi tomada após pressão de lideranças indígenas, que ameaçaram protestos. Sem a dragagem, o escoamento de grãos pode cair de 3,5 a 5,5 milhões de toneladas, gerando custo extra de R$ 500 milhões.
O que aconteceu na reunião
Nesta quinta-feira (23), no Palácio do Planalto, representantes de ministérios e povos indígenas se reuniram. Lula contrariou auxiliares e não acatou as recomendações de iniciar a dragagem de manutenção. Lideranças locais ameaçaram protestos em pleno calendário eleitoral.
Participaram a ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, e representantes dos Ministérios dos Transportes, Portos e Aeroportos, Minas e Energia, Dnit e ANA.
O projeto de dragagem que foi engavetado
Entre janeiro e fevereiro, indígenas de 14 etnias ocuparam por quase um mês o terminal da Cargill em Santarém (PA) contra uma dragagem anterior. O projeto do Dnit foi engavetado. Diante do El Niño, um acordo entre Dnit e Abani (Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior) foi resgatado: empresas bancariam a dragagem emergencial, e o governo fiscalizaria.
O empreendimento foi redimensionado para atenuar impactos: em vez de 3 milhões de m³ de sedimentos por três anos, seriam 1 milhão de m³ em menos de 2% da extensão navegável (cerca de quatro quilômetros), em sete pontos entre Miritituba e Santarém, com duração de 90 a 100 dias. O cronograma foi alterado para evitar o período de reprodução de quelônios. Segundo técnicos, nenhuma comunidade indígena seria afetada em raio inferior a dez quilômetros. Pela nova lei de licenciamento, dragagens de manutenção não precisam de licença do Ibama ou da Semas.
O impacto no bolso do consumidor
Sem a dragagem, o risco de paralisação do transporte de cargas pelo Tapajós é alto. O El Niño, causado pelo aquecimento do Oceano Pacífico, provoca seca no Norte e reduz o volume dos rios amazônicos.
A menor navegabilidade deve afetar o escoamento de 3,5 a 5,5 milhões de toneladas de grãos (soja e milho) neste ano. Em 2027, o impacto pode ser ainda maior. Para produtores rurais do norte de Mato Grosso, isso significa custos mais altos para armazenar a colheita ou buscar alternativas como os portos de Santos (SP) ou Itaqui (MA). A conta adicional estimada é de R$ 500 milhões com o escoamento logístico.
Mais CO2 e menos eficiência
A menor movimentação de cargas afeta o plano de negócios de terminais portuários do Arco Norte e aumenta as emissões de gases do efeito-estufa. Um comboio típico de 25 barcaças transporta o mesmo volume de 1.700 caminhões ou de seis composições ferroviárias (com 150 vagões cada). Estimativas indicam a potencial emissão de 55 mil toneladas a mais de CO2 com restrições no uso do Tapajós. As barcaças podem continuar navegando, mas com menos mercadorias para enfrentar um rio menos volumoso e não encalhar nos sedimentos acumulados pela falta de dragagem.
Perguntas Frequentes
Por que Lula desautorizou a dragagem?
Lula desautorizou a dragagem emergencial após pressão de lideranças indígenas, que ameaçaram protestos em pleno calendário eleitoral.
O que é o Super El Niño?
É um fenômeno climático causado pelo aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico, que altera a circulação da atmosfera e muda o regime de chuvas, provocando seca no Norte do Brasil.
Quanto custará a crise logística?
Estima-se uma conta adicional de R$ 500 milhões com o escoamento logístico, devido ao aumento de custos para armazenar grãos ou usar portos alternativos.
Quem participou da reunião?
Participaram a ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, e representantes dos Ministérios dos Transportes, Portos e Aeroportos, Minas e Energia, Dnit e ANA.
O que muda para o consumidor?
A crise pode encarecer o frete de grãos, impactando o preço de alimentos e rações, além de aumentar as emissões de CO2 devido ao uso de caminhões e trens no lugar de barcaças.