Análise: Brasil fica sem rumo no mundo e sem estratégia entre EUA e China
O Brasil patina. De um lado, a China, maior parceiro comercial desde 2009. De outro, os Estados Unidos, aliado histórico e potência militar. No meio, o Itamaraty tenta equilibrar pratos que já caíram. A política externa brasileira, outrora conhecida por sua coerência, virou um exercício de improviso. E o mundo percebeu.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as exportações brasileiras para a China somaram US$ 89 bilhões em 2025, um crescimento de 12% em relação a 2024. No mesmo período, as exportações para os Estados Unidos caíram 4%, para US$ 31 bilhões. A balança pende para o leste, mas a dependência de insumos chineses, como fertilizantes e eletrônicos, cresce na mesma proporção.
A dança das cadeiras no Itamaraty
O governo brasileiro tenta agradar os dois lados e acaba desagradando ambos. Em 2025, o Brasil apoiou uma resolução na ONU contra a China no Mar do Sul da China, mas no mesmo mês enviou uma comitiva a Pequim para negociar investimentos em infraestrutura. A sinalização ambígua gerou ruído. Em Washington, o Departamento de Estado classificou a postura brasileira como "inconsistente". Em Pequim, o Ministério das Relações Exteriores chinês pediu "maior previsibilidade" nas relações bilaterais.
O custo da indefinição: investimentos e comércio
A indefinição tem preço. O Banco Central registrou uma queda de 18% nos investimentos diretos dos EUA no Brasil em 2025, que somaram US$ 8,2 bilhões. Já os investimentos chineses, embora tenham crescido 7%, ficaram concentrados em setores de alto risco regulatório, como energia e mineração. A falta de uma estratégia clara afugenta capital de longo prazo.
A balança comercial com a China, embora superavitária, esconde uma fragilidade: 70% das exportações brasileiras para o país são commodities, soja, minério de ferro, petróleo. O Brasil vende matéria-prima e importa manufaturados de alto valor agregado. O déficit na balança de serviços com a China cresceu 15% em 2025, para US$ 4,3 bilhões.
A pressão ambiental como moeda de troca
O discurso ambiental brasileiro, que poderia ser trunfo, virou fonte de tensão. Os EUA condicionaram a entrada do Brasil na OCDE a metas mais ambiciosas de desmatamento zero. A China, por sua vez, pressiona por flexibilização das regras ambientais para projetos de infraestrutura na Amazônia. O Itamaraty tenta navegar entre as duas correntes, mas acaba naufragando.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento na Amazônia caiu 22% em 2025, mas a velocidade da queda diminuiu em relação a 2024. O dado, que poderia ser celebrado, é recebido com ceticismo por ambos os lados. "O Brasil perdeu o timing da credibilidade", afirmou um diplomata europeu sob condição de anonimato.
A ausência de uma doutrina
O Brasil não tem, hoje, uma doutrina de política externa. Durante os governos Lula e Dilma, o eixo era o Sul Global. Com Temer e Bolsonaro, o alinhamento automático aos EUA. Agora, o país tenta um terceiro caminho que não existe. diplomacia brasileira e o BRICS O resultado é um vazio estratégico.
A chancelaria brasileira não produziu um documento de diretrizes para as relações com as duas potências desde 2022. Enquanto isso, outros países da região, como Argentina e Chile, já definiram posições claras. O Brasil, que já foi líder regional, hoje reage aos acontecimentos.
O que esperar do futuro
A tendência é de continuidade da indefinição. As eleições de 2026 podem trazer mudanças, mas o curto prazo reserva mais do mesmo. O Brasil continuará a exportar commodities para a China e a tentar manter relações cordiais com os EUA, sem conseguir extrair vantagens concretas de nenhum dos lados.
Para o empresário brasileiro que depende de insumos chineses ou de tecnologia americana, a recomendação é diversificar fornecedores e mercados. A dependência excessiva de um único parceiro, em um cenário de guerra comercial latente, é risco que pode custar caro.
Perguntas Frequentes
Por que o Brasil não consegue equilibrar as relações com EUA e China?
Porque falta uma estratégia de longo prazo. O Itamaraty alterna entre alinhamento automático e pragmatismo comercial, gerando desconfiança em ambos os lados.
Quais os principais riscos para a economia brasileira nesse cenário?
Dependência excessiva de commodities para a China, queda de investimentos americanos e vulnerabilidade a sanções ou retaliações comerciais.
O Brasil pode ser pressionado a escolher um lado?
Sim. A guerra comercial entre EUA e China tende a se intensificar, e países como o Brasil podem ser forçados a tomar partido, sob pena de perder acesso a mercados ou tecnologia.
Como outros países da América Latina lidam com essa situação?
Argentina e Chile definiram posições mais claras: a Argentina mantém alinhamento com os EUA, enquanto o Chile adota uma postura pragmática, mas com diretrizes explícitas.
Qual o impacto da política ambiental brasileira nessa equação?
Grande. O desmatamento e a política ambiental são usados como moeda de troca por ambos os lados. Sem credibilidade, o Brasil perde poder de barganha.