# Análise: Por que os EUA não tratam a Nicarágua como tratam Cuba e Venezuela?

> Os Estados Unidos não tratam a Nicarágua com a mesma intensidade aplicada a Cuba e Venezuela devido à ausência de recursos naturais estratégicos, como petróleo, e à natureza de uma ditadura familiar consolidada. A Nicarágua representa menor ameaça geopolítica imediata, enquanto ações agressivas poderiam desencadear fluxos migratórios indesejados para a América Central.

*Blog Sem Juízo · Especiais · 23 de julho de 2026 · Igor Bastos*

Após operações contra Venezuela e Cuba, muitos se perguntam por que os EUA não agem na Nicarágua. A resposta envolve falta de recursos naturais, uma ditadura familiar e o risco de migração. Entenda o cenário e o que isso significa para a região.

## Análise: Por que os EUA não tratam a Nicarágua como tratam Cuba e Venezuela?

Após os EUA capturarem o ditador da Venezuela em janeiro e aumentarem a pressão econômica sobre Cuba, muitos se perguntaram se a Nicarágua seria o próximo alvo. No entanto, Washington pouco fez para sinalizar medidas iminentes contra o país, governado por Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo.

**Resposta direta:** Os EUA tratam a Nicarágua de forma diferente porque o país não possui os recursos naturais da Venezuela, é governado por uma família sem sucessor claro e Washington teme que ações drásticas gerem ondas migratórias ou repressão. A abordagem é de pressão gradual, com sanções pontuais, mas sem intervenção direta.

## A diferença de tratamento: recursos e liderança

"Para Marco Rubio, Cuba importa muito mais do que a Nicarágua. Além disso, a Nicarágua não possui os recursos naturais da Venezuela", disse o Professor Kai Thaler, do Departamento de Estudos Globais da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara.

Ele afirmou que outra diferença fundamental é que a Nicarágua é governada por uma família e não tem um sucessor claro como Delcy Rodríguez, da Venezuela, que assumiu a liderança do país após a captura de Nicolás Maduro.

"Todas as alternativas de liderança foram eliminadas por Ortega e Murillo", afirmou Thaler.

## Gestos de aproximação e sanções seletivas

Dias após a operação dos EUA na Venezuela, a Nicarágua anunciou medidas interpretadas como gestos em direção a Washington. Libertou dezenas de prisioneiros depois que os EUA exigiram sua soltura e, posteriormente, restabeleceu a exigência de visto para cubanos, limitando sua imigração.

Em abril, os EUA impuseram novas sanções a autoridades nicaraguenses, visando dois dos filhos de Ortega e Murillo. O Secretário de Estado americano, Marco Rubio, elevou o tom, condenando a declaração de Ortega de cancelar as eleições, mas não propôs mudança de regime, como fez com Cuba.

## Abordagem cautelosa: medo de migração e repressão

O cientista político nicaraguense Manuel Orozco, diretor do Programa de Migração, Remessas e Desenvolvimento do Diálogo Interamericano, afirmou que a Casa Branca quer evitar ações que possam levar a ondas migratórias ou repressão. Em vez disso, aposta em mudanças graduais sem intervenção direta.

"Uma interpretação é que a inércia política na ditadura de Murillo e Ortega irá gerar conflitos internos, uma desaceleração econômica, um possível protesto social onde (os EUA) podem exercer pressão. Mas não o contrário. Se intervir neste momento, não se sabe qual seria o efeito sobre uma transição política", disse Orozco.

Ele enfatizou que o governo sandinista, no poder desde 2007, não enfrenta turbulências econômicas ou protestos de rua. "Se os EUA intervirem, estariam forçando uma transição."

## O jogo de cena de Ortega e Murillo

Em abril, Ortega fez raras declarações públicas, chamando as sanções contra seus filhos de "mentalmente perturbadas". Três meses depois, anunciou o fim das eleições e descreveu a captura de Maduro como uma "monstruosidade".

Thaler afirmou que tais declarações indicam que o governo "não acredita que os Estados Unidos vão se concentrar na Nicarágua, que Ortega se sinta seguro para criticar e insultar Trump dessa forma".

Orozco sugeriu que a declaração foi principalmente uma mensagem para as fileiras internas. "Dito de forma pejorativa, é como se tivessem deixado o cachorro latir, mas não morder. É simbólico para a base interna, para dizer que ainda somos anti-imperialistas. A realidade é diferente; não há nenhuma expressão de solidariedade com a Venezuela ou Cuba na retórica ou na política externa."

## Sanções constantes, mas sem mudança de regime

Orozco afirmou que os Estados Unidos "têm desenvolvido uma série de pressões" por meio de sanções, às quais a Nicarágua raramente responde, em um padrão quase constante.

"Uma leitura equivocada dá a impressão de que a Nicarágua vem depois da Venezuela e de Cuba, que a única política dos EUA é a intervenção direta. Não há nenhum cálculo sobre o que isso significa. Ninguém pensa no que significaria para os EUA remover essas pessoas do poder quando não há oposição, os cidadãos não sabem quem são os líderes no exílio e há estabilidade econômica. É especulação sobre algo incerto", afirmou.

## O longo prazo: eleições de 2027 e o papel de Rosario Murillo

Com a ressalva, Orozco disse que os Estados Unidos podem estar pensando a longo prazo, de olho nas eleições gerais teoricamente marcadas para novembro de 2027 (caso Ortega não cumpra a ameaça de cancelá-las).

"Eles estão planejando sincronizar a pressão para que algum tipo de reforma seja implementada. As sanções visam encurralar o regime. É provável que eles não percam a oportunidade de a Nicarágua passar por uma transformação democrática."

Enquanto isso, Thaler ressaltou que os EUA atualmente não estão dando muita atenção à Nicarágua e não espera que isso mude. "Há sanções contra autoridades do regime, mas é algo que acontece a cada três ou seis meses. Não é um sinal de atenção maior do que o habitual."

Thaler observou que Ortega e Murillo estão sempre prontos para negociar com os Estados Unidos, mesmo que não haja uma mesa de diálogo. Sinais como a libertação de prisioneiros são "concessões superficiais para reduzir a pressão dos EUA sem ameaçar o poder deles, sem realmente ceder nada".

## Oposição fragmentada e continuidade do regime

O analista concluiu que eleições e democracia na Nicarágua estão "longe de serem possíveis neste momento" - especialmente sem uma oposição unificada. "Ela é muito fragmentada. Há pessoas como Félix Madariaga, que são muito proeminentes e continuam seus esforços para manter a causa nicaraguense presente no discurso dos EUA e do mundo, mas não há unidade, não há uma causa comum além do fim da ditadura."

Embora parte da oposição espere uma possível divisão interna no governo, os analistas concordam que tal cenário é improvável. "Não parece haver alternativas dentro do regime ou grandes possibilidades de qualquer ruptura. Existe a possibilidade de outra sucessão familiar por um dos filhos, como Laureano, mas não há generais ou vice-presidentes", disse Thaler.

"O cenário mais plausível é a continuidade do regime, com Rosario Murillo em uma posição mais forte do que nunca. Daniel (80 anos) está cada vez menos presente na vida pública. Rosario (74) é muito mais ativa na gestão do dia a dia. Há um papel maior na política para Laureano e para os filhos, mas, até agora, não há indícios de qualquer possibilidade de transição", reafirmou.

Ambos os analistas afirmaram que Murillo, que recebeu o título de copresidente em fevereiro de 2025, já está no comando. Essa também parece ser a posição do Departamento de Estado, que passou a citar o nome de Murillo antes do de Ortega em seus comunicados.

"Historicamente, havia a percepção de que uma transição para Rosario provocaria rachaduras na Frente Sandinista. Isso ainda é possível, mas a Frente de hoje é muito diferente da de uma década atrás. Não se trata apenas de um partido personalista; isso também se deve a Rosario, que trabalhou para garantir que as pessoas em cargos de poder lhe sejam leais, e não apenas a Daniel", disse Thaler.

No entanto, Orozco sugeriu que Murillo não possui uma base popular própria e continua a depender da imagem de Ortega.

## Perguntas Frequentes

### Por que os EUA não invadem a Nicarágua como fizeram com a Venezuela?

Os EUA não invadiram a Nicarágua. A operação na Venezuela foi a captura de um ditador, não uma invasão. Para a Nicarágua, Washington adota uma abordagem de pressão gradual, sem intervenção direta, temendo ondas migratórias e repressão.

### A Nicarágua tem petróleo como a Venezuela?

Não. A Nicarágua não possui os recursos naturais da Venezuela, o que reduz o interesse estratégico dos EUA.

### Quem é Rosario Murillo?

Rosario Murillo é a esposa de Daniel Ortega e copresidente da Nicarágua desde fevereiro de 2025. Ela é considerada a governante de fato, mais ativa que o marido.

### Quando serão as próximas eleições na Nicarágua?

Teoricamente, as eleições gerais estão marcadas para novembro de 2027, mas Ortega já ameaçou cancelá-las.

### O que a Nicarágua fez para evitar sanções dos EUA?

O país libertou dezenas de prisioneiros e restabeleceu a exigência de visto para cubanos, gestos interpretados como tentativas de reduzir a pressão americana.

### Há chance de mudança de regime na Nicarágua?

Analistas consideram improvável. A oposição é fragmentada, não há sucessor claro e o regime mantém controle sobre as forças de segurança.

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Fonte (canonical): https://blogsemjuizo.com.br/especiais/analise-por-eua-nao-tratam-nicaragua-como-tratam-cuba-venezuela/
