Análise: por que o governo venezuelano fala cada vez menos em Maduro
A narrativa do governo da Venezuela tem passado por mudanças significativas nos últimos tempos. Uma palavra que desapareceu do vocabulário oficial é "interina", que deixava de lado a figura de Nicolás Maduro. O Ministério da Comunicação e Informação agora se refere a Delcy Rodríguez apenas como presidenta, consolidando uma nova fase no discurso governamental.
Rodríguez, que completou 180 dias no cargo no início de julho, assume essa nova denominação em meio a um contexto de crise, após terremotos que deixaram mais de 5.000 mortos no país. Isso fez com que o foco na presidência encarregada, prevista pela Constituição, fosse desviado.
A mudança na nomenclatura não é apenas uma questão de título; é um indicativo da aceitação dentro da coalizão dominante da continuidade de Rodríguez no cargo. Segundo John Magdaleno, cientista político venezuelano, "o governo encarregado está decidindo produzir seu próprio posicionamento, o que significa subordinar a exigência pela libertação de Maduro".
Os pedidos pela libertação de Maduro, que estava sob custódia nos Estados Unidos, eram comuns em janeiro, mas têm sido cada vez menos ouvidos desde o Palácio de Miraflores. A CNN enviou uma solicitação ao governo venezuelano sobre essa mudança, mas não obteve resposta até o momento.
Carmen Arteaga, cientista política da Universidade Simón Bolívar, destaca a importância simbólica de chamar Rodríguez de presidenta. "Está claro que a agenda do retorno de Maduro está sendo deixada para trás definitivamente", afirma. As circunstâncias têm favorecido essa mudança, uma vez que a atenção do público está voltada para a crise dos terremotos e a situação econômica do país, relegando Maduro a um papel secundário.
O governo sob a liderança de Rodríguez enfrenta uma série de desafios, ampliados pela tragédia dos terremotos e por disputas internas. "Está em uma disputa para conseguir permanecer no poder. O esforço não é nada fácil", diz Arteaga, lembrando que o chavismo não é uma unidade monolítica, mas sim um conjunto de facções que se reúnem em torno da liderança carismática de Chávez.
Magdaleno reforça que a autocracia na Venezuela opera a partir de uma coalizão dominante que possui recursos estratégicos. Ele sugere que essa coalizão tem um acordo implícito para manter o poder, o que não deve causar grandes dificuldades para a continuidade dessa trajetória.
Esse contexto de alianças internas se reflete nos acordos que surgiram após a morte de Chávez, e a dinâmica atual parece seguir um padrão semelhante. "O Rodrigato, como é conhecida a facção liderada por Delcy e Jorge Rodríguez, vem consolidando sua posição e desmontando a estrutura do madurismo", comenta Arteaga.
No entanto, os acordos entre os líderes do chavismo têm deixado de fora a base militante, que se mostra cada vez mais reduzida. Magdaleno observa que não há estudos de opinião que revelem mudanças significativas no apoio a Rodríguez por parte desse setor. A tutela dos Estados Unidos sobre o governo venezuelano continua a ser uma questão sensível, desafiando a narrativa anti-imperialista que tem sido uma constante na política do país.
As primeiras reformas implementadas pelo governo interino, como na lei de hidrocarbonetos e em temas econômicos, indicam uma mudança de direção. "Fica claro que essa foi a prioridade", explica Magdaleno. Ele destaca que, na dimensão político-institucional, o governo parece ter mais liberdade para agir, como evidenciado pelas recentes nomeações.
O futuro da política venezuelana está atrelado a um processo de articulação com setores da oposição, buscando promover a democracia. No entanto, Arteaga ressalta que "o que o venezuelano comum possa desejar não está na agenda". O destino do país depende de circunstâncias geopolíticas complexas, e um acordo entre elites pode ser a solução mais viável, ainda que distante dos anseios da população.
Rodríguez tem se empenhado em manter a relação com a administração Trump, buscando se consolidar como uma aliada. Contudo, sua posição pode ser vista como algo conjuntural, já que as urgências, como a crise gerada pelos terremotos, demandam ações imediatas.
A análise da situação política na Venezuela revela um cenário em constante transformação, onde a figura de Maduro vai se tornando cada vez menos relevante, enquanto Delcy Rodríguez se estabelece como um novo símbolo dentro da narrativa governamental.