Cancelar os clássicos ou aprender com eles? O dilema moral do presente
Toda geração acredita possuir o dever de corrigir os erros da anterior. É um impulso compreensível e, em certa medida, necessário para o avanço civilizatório. O problema surge quando a justa pretensão de construir uma sociedade mais igualitária e consciente passa a confundir correção histórica com apagamento histórico. É justamente nesse ponto que se insere um dos debates mais relevantes da atualidade: a releitura dos clássicos da literatura e o crescente movimento de cancelamento de autores consagrados.
O dilema entre cancelar os clássicos ou aprender com eles gira em torno de como lidar com obras que refletem preconceitos de sua época. De um lado, a defesa da contextualização histórica e da leitura crítica; do outro, a pressão por adaptações editoriais para evitar a perpetuação de estereótipos discriminatórios, impulsionada também por interesses comerciais do mercado editorial.
As contradições de um tempo que fala em diversidade, mas quer censurar
Poucos temas revelam de maneira tão evidente as contradições do nosso tempo. Nunca se falou tanto em diversidade, liberdade de pensamento e pluralidade de vozes; paradoxalmente, nunca se observou tamanho esforço para enquadrar obras produzidas em outros séculos aos parâmetros morais do presente. A literatura, que durante muito tempo foi compreendida como patrimônio cultural capaz de preservar a memória das sociedades, passou a ocupar o centro de disputas políticas, ideológicas, mercadológicas e até comerciais que extrapolam, em muito, o universo das letras.
O fenômeno global da releitura de clássicos
O fenômeno não se restringe ao Brasil. Em uma breve pesquisa constata-se que obras de Roald Dahl tiveram palavras alteradas para eliminar expressões consideradas ofensivas; livros de Agatha Christie passaram por revisões editoriais; H. P. Lovecraft passou a ser permanentemente associado ao seu racismo declarado; Ezra Pound tornou-se exemplo da difícil convivência entre genialidade literária e simpatia pelo fascismo; Rudyard Kipling é constantemente revisitado pelo olhar crítico do pós-colonialismo; Pablo Neruda passou a ser reavaliado em razão das confissões presentes em sua autobiografia; Ernest Hemingway tornou-se alvo de críticas pela visão estereotipada da masculinidade; Louis-Ferdinand Céline jamais deixou de carregar o peso do antissemitismo; William Golding viu sua biografia revisitada à luz de escritos pessoais publicados após sua morte; até Virginia Woolf, ícone do pensamento feminista, passou a ser analisada sob a perspectiva de seu elitismo e da limitação social de suas reflexões.
Monteiro Lobato: o caso mais emblemático do Brasil
No Brasil, o exemplo mais emblemático continua sendo Monteiro Lobato. Sua importância para a literatura infantil é praticamente incontestável, mas igualmente incontestáveis são as críticas dirigidas à forma como personagens negros foram retratados em algumas de suas obras e às posições pessoais que manifestou em defesa de ideias eugenistas. O debate, desde então, divide estudiosos, educadores, juristas e leitores entre aqueles que defendem a manutenção integral dos textos, acompanhados de adequada contextualização histórica, e os que entendem ser legítima a adaptação de determinados trechos para evitar a perpetuação de estereótipos discriminatórios.
A censura tem múltiplas faces, e não é monopólio de um lado só
Entretanto, reduzir essa discussão à clássica divisão entre progressistas e conservadores talvez seja um dos maiores equívocos analíticos. A censura contemporânea possui múltiplas faces e nem sempre parte do mesmo espectro político. Há movimentos que pretendem retirar obras de circulação por reproduzirem preconceitos históricos; outros buscam impedir livros por abordarem diversidade sexual, religião, identidade de gênero ou críticas a determinados valores tradicionais. Dependendo da obra, do autor e do contexto, alteram-se os protagonistas, mas permanece o mesmo impulso de estabelecer quais ideias podem ou não circular. A motivação muda; o mecanismo, não.
O papel do mercado editorial nessa história
Essa constatação ganha contornos ainda mais interessantes quando se observa que o mercado editorial também exerce papel decisivo nesse processo. Em tese, poder-se-ia imaginar que as discussões acerca da adaptação de clássicos fossem conduzidas exclusivamente por critérios pedagógicos ou acadêmicos. Na prática, contudo, há um componente econômico frequentemente negligenciado. Quem compra livros infantis não são as crianças, mas seus pais, responsáveis, escolas e gestores públicos.
Naturalmente, editoras procuram reduzir riscos comerciais e preservar mercados consumidores, razão pela qual muitas vezes se mostram mais sensíveis às expectativas de quem decide a compra do que propriamente às potencialidades educativas do debate histórico. Os próprios estudos sobre releituras da literatura brasileira reconhecem que essas adaptações cumprem função pedagógica relevante ao aproximar jovens leitores dos clássicos, mas igualmente representam importante estratégia editorial e comercial.
O risco de apagar o documento histórico
Talvez seja justamente nesse aspecto que a discussão mais se afaste da literatura para aproximar-se da sociologia da cultura. Em vez de incentivar a leitura crítica das obras, estimulando professores e mediadores a contextualizarem determinado vocabulário, determinada visão de mundo ou determinados preconceitos próprios de cada época, muitas vezes opta-se pelo caminho aparentemente mais simples: modificar o texto ou reduzir sua circulação. O problema é que toda intervenção dessa natureza produz inevitavelmente uma consequência silenciosa. Ao alterar a obra, altera-se também o documento histórico que ela representa.
Por que Machado de Assis e Nelson Rodrigues escapam da tesoura?
É curioso perceber que esse impulso revisionista não atinge todos os autores da mesma maneira. Não existe, por exemplo, um movimento consistente defendendo a reescrita das obras de Machado de Assis ou de Nelson Rodrigues. E isso não ocorre apenas porque seria praticamente impossível modificar sua linguagem sem destruir a própria essência literária de seus textos. Há também um pressuposto implícito de que os leitores dessas obras possuem maturidade suficiente para compreender que passagens hoje consideradas racistas, machistas ou homofóbicas refletem o ambiente cultural em que foram produzidas, não constituindo prescrições éticas destinadas ao presente. A leitura crítica, nesse caso, substitui a censura.
A literatura como registro arqueológico da condição humana
Talvez essa devesse ser, aliás, a lógica aplicada a todos os clássicos. Uma obra literária não se resume ao enredo que narra. Ela preserva formas de linguagem, costumes, estruturas familiares, relações de poder, crenças religiosas, preconceitos, avanços científicos, concepções morais e valores sociais de seu tempo. Trata-se de um verdadeiro registro arqueológico da condição humana. Apagar essas marcas não elimina os preconceitos da história; apenas dificulta que as gerações futuras compreendam como eles surgiram, como foram naturalizados e de que maneira conseguiram sobreviver por tanto tempo.
É exatamente por isso que talvez seja mais produtivo ensinar um leitor a identificar o racismo presente em determinado romance do que simplesmente retirar o romance de circulação. A consciência crítica nasce do confronto com a realidade, não da sua ocultação. Nenhuma sociedade amadurece escondendo suas próprias contradições. Ao contrário, a maturidade intelectual consiste justamente em desenvolver a capacidade de reconhecer que grandes escritores produziram grandes obras sem que isso os transformasse em seres moralmente impecáveis. A genialidade artística jamais significou santidade pessoal.
Isso não implica minimizar preconceitos nem relativizar injustiças históricas. Significa apenas compreender que a função da literatura nunca foi oferecer modelos éticos de comportamento. A literatura existe para revelar a complexidade da experiência humana, inclusive seus aspectos mais sombrios. Shakespeare escreveu assassinos memoráveis; Dostoiévski penetrou a mente do criminoso; Machado de Assis transformou o ciúme em uma das maiores ambiguidades da literatura universal; Nelson Rodrigues fez da hipocrisia social sua matéria-prima. Nenhum deles pretendia ensinar virtudes por meio da eliminação dos defeitos humanos. Ao contrário, produziram obras justamente porque compreenderam que a literatura nasce do conflito, não da perfeição.
Vivemos, entretanto, um momento histórico em que praticamente todas as manifestações culturais acabam submetidas ao filtro da polarização política. O antagonismo crescente entre direita e esquerda produz uma curiosa inversão de prioridades. Em vez de perguntar o que determinada obra pode nos ensinar sobre o ser humano, passamos a indagar se ela merece existir. E talvez essa seja a pergunta mais perigosa de todas.
Perguntas Frequentes
O que significa "cancelar os clássicos"?
É o movimento que defende a adaptação ou retirada de circulação de obras literárias que contenham elementos considerados racistas, machistas ou homofóbicos, sob o argumento de que perpetuam preconceitos.
Quais autores são mais afetados por esse debate?
No Brasil, Monteiro Lobato é o caso mais emblemático. Mundialmente, nomes como Roald Dahl, Agatha Christie, H. P. Lovecraft, Ezra Pound, Rudyard Kipling, Pablo Neruda, Ernest Hemingway, Louis-Ferdinand Céline, William Golding e Virginia Woolf também estão no centro da discussão.
A censura vem só da esquerda?
Não. A censura contemporânea possui múltiplas faces e parte de diferentes espectros políticos. Há grupos que querem retirar obras por preconceitos históricos e outros que buscam impedir livros que abordem diversidade sexual, religião ou identidade de gênero.
Qual o papel das editoras nesse processo?
As editoras, motivadas por interesses comerciais, muitas vezes adaptam obras para reduzir riscos e atender às expectativas dos compradores (pais, escolas e gestores públicos), o que pode influenciar decisões pedagógicas.
É melhor cancelar ou contextualizar os clássicos?
A maioria dos defensores da leitura crítica argumenta que é mais produtivo ensinar o leitor a identificar preconceitos históricos nas obras do que simplesmente retirá-las de circulação, preservando assim o valor documental e educativo dos textos.