# O que faz de uma viagem uma 'Odisseia'? Entenda a origem

> O que faz de uma viagem ser considerada uma 'Odisseia'? Este termo está profundamente ligado à obra de Homero e à jornada épica de Odisseu, que enfrentou desafios inimagináveis. Entenda a origem e a evolução desse conceito.

*Blog Sem Juízo · Especiais · 27 de julho de 2026 · Sol Henriques*

## O que faz de uma viagem uma "Odisseia"?

A expressão "Odisseia" remete a um antigo poema épico grego que narra a história de Odisseu, o rei de Ítaca. Ele passou dez anos lutando na Guerra de Troia e mais dez tentando retornar para casa. Esse percurso, que equivale a aproximadamente 560 milhas náuticas entre Troia e Ítaca, não se deve apenas à tecnologia rudimentar de navegação da época. Registros de viagens na literatura antiga sugerem que esse trajeto poderia ser realizado em cerca de uma semana, ou talvez até duas, caso enfrentasse ventos desfavoráveis.

Na narrativa de Homero, Odisseu enfrenta múltiplos obstáculos, desde a ira dos deuses até a fragilidade humana. Durante sua viagem, a tripulação de Odisseu consome frutos que os fazem esquecer seu objetivo de retornar a Ítaca. Eles ainda ficam presos em uma caverna com um Ciclope canibal e, ao se aproximarem de casa, são desviados por ventos, enfrentam mais monstros e têm seus companheiros transformados em porcos. O herói, em busca de respostas, desce ao mundo dos mortos e realiza um sacrifício, enfrentando Sereias e monstros marinhos como Cila e Caríbdis. Ao final, todos os seus homens morrem e Odisseu ainda é mantido como escravo por Calipso.

Curiosamente, a palavra "odisseia" não captura o sofrimento e a miséria vividos por Odisseu e seus companheiros. Em vez disso, o termo evoca aventuras ousadas e uma exploração romântica do desconhecido. Exemplos contemporâneos incluem a missão Mars Odyssey da NASA e a competição "Odyssey of the Mind". A Honda Odyssey, lançada nos anos 1990, foi promovida como "a minivan para pessoas que, no fundo, não são do tipo que dirige minivans". O executivo John Sculley também usou "Odisseia" no título de sua autobiografia, que conta sua trajetória de CEO da PepsiCo a CEO da Apple.

A evolução do termo "odisseia" na língua inglesa é fascinante, conforme explica John Kelly, ex-editor de dicionários. A palavra é derivada do latim "Odyssea", que, por sua vez, vem do grego antigo "Odusseia", significando literalmente "a história de Odisseu". A origem do nome Odisseu é incerta, mas o poema sugere uma etimologia popular: "odiado por deuses e homens". Odisseu menciona que recebeu o nome do avô, que previu que ele sofreria e faria outros sofrerem.

O termo se estabeleceu como uma das obras fundamentais do cânone literário ocidental, sendo registrado pela primeira vez no século XI no "Enchiridion", do monge Byrhtferth, em inglês antigo como "Odissia". A próxima menção ocorreu no século XVI, quando o poeta Edmund Spenser mencionou que seu poema "The Faerie Queene" foi inspirado em "A Odisseia".

Foi apenas no final do século XIX que "odisseia" começou a ser usada de forma mais ampla, como uma longa jornada repleta de aventuras. O romancista Robert Louis Stevenson utilizou a palavra em seu livro "Raptado", onde um personagem descreve uma travessia pelas Terras Altas da Escócia como uma grande "odisseia". Em pouco tempo, o termo deixou de ser um nome próprio, passando a ser um substantivo comum, aplicado tanto a viagens literais quanto a jornadas metafóricas.

David Elmer, professor de literatura grega na Universidade Harvard, afirma que as diversas aplicações da palavra "odisseia" compartilham a ideia de um trajeto longo e cheio de desvios. Alexander Forte, professor assistente de Estudos Clássicos na Universidade de Nova York, ressalta que uma característica essencial de uma "odisseia" é ser uma viagem que vale a pena contar depois, repleta de acontecimentos inesperados e longos desvios, mas que resulta em sobrevivência para narrar a história.

A palavra grega antiga "nostos", que significa "retorno ao lar", designava poemas épicos sobre o retorno de um herói, capturando complexidades semelhantes à palavra inglesa "return". Apesar dos inúmeros obstáculos enfrentados por Odisseu, suas viagens também contêm prazer e emoção. A narrativa dominante gira em torno do desejo de voltar para casa, mas há indícios de que Odisseu também aprecia a jornada, como quando ele insiste em permanecer na caverna dos Ciclopes, movido pela curiosidade, enquanto seus homens querem partir imediatamente.

Sheila Murnaghan, professora de grego da Universidade da Pensilvânia, observa que o desejo desesperado de Odisseu de voltar para casa não conta toda a história, pois ele também possui uma verdadeira sede de aventura. Isso se reflete em obras subsequentes, como o "Inferno" de Dante e o poema "Ulysses" de Alfred Tennyson, que retratam Odisseu como uma figura inquieta, incapaz de resistir ao chamado da aventura.

As percepções contemporâneas da palavra "odisseia" podem estar ligadas à forma como o público moderno se relaciona com a obra original. Quando estudantes leem pela primeira vez ou assistem a adaptações cinematográficas, como a de Christopher Nolan, é natural que se encantem com as aventuras e criaturas mitológicas. Kelly se pergunta se a abordagem moderna se distancia da percepção dos antigos, que buscavam entender a virtude e a essência do heroísmo, e conclui que muitos ainda aprendem lições sobre a arrogância e a astúcia de Odisseu, mas que a maioria apenas deseja chegar à parte do Ciclope.

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Fonte (canonical): https://blogsemjuizo.com.br/especiais/faz-uma-viagem-uma-8220odisseia8221/
