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Operação Janus: investigação contra o PCC cita PMs de alto escalão e doleiros

ResumoOperação Janus, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo, investiga uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. A denúncia cita três coronéis da Polícia Militar, doleiros e empresários, mas os militares não são alvos de investigação. Onze pessoas foram presas na operação.

O Ministério Público de São Paulo deflagrou a Operação Janus contra uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. A denúncia cita três coronéis da PM, doleiros e empresários, mas os militares não são investigados. Onze pessoas foram presas.

Tomás Wenzel
Operação Janus: investigação contra o PCC cita PMs de alto escalão e doleiros

Operação Janus: investigação contra o PCC cita PMs de alto escalão e doleiros — Foto: Reprodução / Blog Sem Juízo

Eu já perdi a conta de quantas vezes um sistema de atendimento me pediu para repetir o que eu disse, como se o problema fosse minha dicção e não o algoritmo surdo que me atende. Mas o que aconteceu na manhã desta terça-feira (21) em São Paulo não tem nada de automatizado: foi o Ministério Público do Estado de São Paulo que apertou o gatilho da Operação Janus contra uma rede de financiamento e lavagem de dinheiro ligada ao PCC (Primeiro Comando da Capital). E, como em toda boa crônica de burocracia digital, o diabo mora nos detalhes, neste caso, nos nomes que aparecem nas mensagens interceptadas.

A denúncia do MP revela relações que envolvem doleiros, empresários e menções a membros da alta cúpula da Polícia Militar do estado. As investigações, baseadas em mensagens interceptadas e planilhas de transações financeiras, citam nomes de oficiais de alta patente da corporação. No entanto, os militares não são investigados e não foram denunciados.

Os policiais citados são: o coronel Pereira Martins, o coronel José Augusto Coutinho e o coronel "Patrício". Martins é descrito como alguém com relação de amizade com os alvos Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza. Registros indicam que o oficial participava de grupos de mensagens sociais e se dispunha a intermediar contatos com outras autoridades.

Coutinho, ex-comandante-geral da Polícia Militar e ex-comandante da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), aparece em diálogos dos investigados, sugerindo uma possível ligação com o operador financeiro do grupo criminoso Amjad Ahmad. Já "Patrício" é identificado em planilhas de despesas do grupo como "cliente", com registros de pagamentos em dinheiro vivo provenientes de atividades ilícitas conhecidas como "ticketagem". Além disso, mensagens revelam que os operadores buscavam levantar fundos para "pagar a polícia".

Como funcionava a rede de financiamento do PCC

De acordo com o MP, a estrutura de lavagem de dinheiro era sustentada por operadores financeiros e doleiros que garantiam a blindagem do patrimônio da facção. Dois homens são citados no setor: Raphael Flores Rodriguez, vulgo "Batata", apontado como um elo fundamental entre o PCC e a rede de doleiros, com histórico criminal por movimentações financeiras em favor do PCC; e Amjad Ahmad, que seria responsável por operar o esquema a partir do Tatuapé em parceria com os outros lavadores de dinheiro, ao utilizar uma estrutura para ocultar rendimentos e viabilizar operações de comércio exterior.

O grupo investigado funcionava como uma espécie de "banco" destinado à movimentação de recursos ilícitos. Um dos principais nomes tidos como clientes era Leonardo Monteiro Moja, o "Léo do Moinho", apontado como chefe da facção na Favela do Moinho, no Centro de São Paulo.

Os tribunais do crime e as disputas imobiliárias

A investigação detalha ainda que o empresário Cléber Azevedo dos Santos recorreu a "tribunais do crime" do PCC para resolver disputas imobiliárias. Em um dos episódios, o conflito envolvia um imóvel de luxo em Riviera de São Lourenço. A resolução do problema teria passado por uma intervenção direta da liderança da facção.

As investigações também indicam a participação dos suspeitos em reuniões para a resolução de conflitos patrimoniais submetidos a integrantes da facção, em episódios identificados como "tribunais do crime".

As consequências da operação

Na manhã desta terça-feira (21), 11 alvos foram presos e cinco estão foragidos. "Léo do Moinho" e "Buiu" já estavam presos, mas foram alvos de novos mandados. A CNN Brasil tenta localizar a defesa dos investigados e dos policiais citados. O espaço está aberto para manifestações.

Além das prisões e buscas, a Justiça deferiu medidas cautelares patrimoniais que incluem o bloqueio de contas bancárias e aplicações financeiras, a indisponibilidade de imóveis e veículos e o sequestro de bens atribuídos aos investigados. As decisões judiciais também determinaram o bloqueio de ativos financeiros de pessoas físicas investigadas até o limite de R$ 10 milhões por investigado, além de medidas de constrição sobre pessoas jurídicas apontadas pela investigação como integrantes da estrutura financeira.

O que é a Operação Janus

A Operação Janus é um desdobramento das investigações feitas nas Operações Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas. O objetivo é aprofundar a apuração sobre indivíduos suspeitos de movimentar recursos financeiros, realizar operações de conversão de dinheiro em espécie em transferências bancárias e atuar na ocultação, circulação e disponibilização de valores atribuídos à organização criminosa.

De acordo com o MP, os investigados teriam feito operações que envolviam entrega de numerário em espécie, transferências bancárias, utilização de empresas e contas de terceiros e movimentação de recursos em benefício de integrantes e colaboradores do PCC.

O nome da operação faz referência a Janus, divindade romana associada às passagens e transições. A denominação remete à atuação investigada de movimentação de recursos entre o dinheiro em espécie e o sistema financeiro formal.

Perguntas Frequentes

Quem são os policiais militares citados na Operação Janus?

Os coronéis Pereira Martins, José Augusto Coutinho e "Patrício" são mencionados em mensagens interceptadas, mas não são investigados nem denunciados.

Quantas pessoas foram presas na operação?

Onze alvos foram presos e cinco estão foragidos. "Léo do Moinho" e "Buiu" já estavam presos e receberam novos mandados.

O que são os "tribunais do crime" do PCC?

São reuniões para resolução de conflitos patrimoniais submetidos a integrantes da facção, como no caso do imóvel em Riviera de São Lourenço.

Qual é o valor bloqueado por investigado?

A Justiça determinou o bloqueio de ativos financeiros de pessoas físicas investigadas até o limite de R$ 10 milhões por investigado.

A Operação Janus é a primeira investigação do tipo?

Não, ela é um desdobramento das Operações Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas.

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Tomás Wenzel

Editoria Destaques

Tomás Wenzel cobre o setor de meios de pagamento e crédito no Blog Sem Juízo. Análises técnicas, sem viés comercial.