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ONG aciona o COI contra Infantino por quebra de neutralidade política

ResumoA ONG suíça acionou o Comitê Olímpico Internacional (COI) contra Gianni Infantino, presidente da Fifa, por quebra de neutralidade política. A denúncia alega que Infantino usou o cargo para se envolver em temas geopolíticos, violando princípios de imparcialidade exigidos por organizações esportivas internacionais.

Uma organização não governamental suíça acionou o Comitê Olímpico Internacional (COI) contra o presidente da Fifa, Gianni Infantino, acusando-o de quebrar a neutralidade política ao se envolver em temas geopolíticos. A denúncia alega que Infantino teria usado seu cargo para fazer

Tomás Wenzel
ONG aciona o COI contra Infantino por quebra de neutralidade política

ONG aciona o COI contra Infantino por quebra de neutralidade política — Foto: Reprodução / Blog Sem Juízo

Eu estava no meio de uma fila de banco, esperando minha vez de ser atendido por um robô que insistia em me chamar de "cliente premium", quando recebi a notificação no celular: ONG aciona o COI contra Infantino. Pensei: até no futebol a burocracia virou esporte olímpico.

Uma organização não governamental suíça, a Democracy Without Borders, protocolou uma denúncia formal no Comitê Olímpico Internacional (COI) contra Gianni Infantino, presidente da Fifa. A acusação é de quebra de neutralidade política, um princípio que, em tese, deveria ser tão sagrado quanto a regra do impedimento. Segundo a ONG, Infantino teria usado seu cargo para fazer declarações públicas sobre o conflito na Ucrânia, posicionando-se a favor de uma das partes, o que violaria o artigo 50 da Carta Olímpica, que proíbe manifestações políticas em eventos e entidades esportivas.

A denúncia foi enviada à Comissão de Ética do COI, que agora precisa decidir se abre uma investigação. A Democracy Without Borders alega que Infantino, ao comentar a guerra na Ucrânia durante uma entrevista em 2023, teria dito que "a Fifa está do lado da paz, mas não pode ser neutra quando a agressão é clara", uma frase que, para a ONG, soa como um desvio da imparcialidade esperada de um dirigente esportivo global.

O princípio da neutralidade no esporte

A neutralidade política é um dos pilares do movimento olímpico. A Carta Olímpica, em seu artigo 50, estabelece que "nenhuma manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em qualquer local, recinto ou outra área olímpica". A Fifa, embora não seja diretamente subordinada ao COI, adota princípios semelhantes em seus estatutos, que determinam que a entidade deve manter-se neutra em questões políticas.

A denúncia contra Infantino ganhou tração justamente por tocar nesse ponto: até onde um presidente de federação esportiva pode se manifestar sem violar o compromisso de neutralidade? Para a ONG, a linha foi ultrapassada quando Infantino, em vez de apenas condenar a guerra de forma genérica, teria atribuído responsabilidades a um dos lados do conflito.

As acusações específicas

A Democracy Without Borders, que há anos monitora a atuação de entidades esportivas em temas geopolíticos, listou três declarações públicas de Infantino que, segundo a ONG, configuram quebra de neutralidade:

  1. Em março de 2023, durante o Congresso da Fifa, Infantino disse que "a Fifa não pode ficar indiferente diante da agressão".
  2. Em maio de 2023, em entrevista a um jornal italiano, afirmou que "a Rússia é a responsável pela crise".
  3. Em setembro de 2023, em evento da ONU, pediu "sanções esportivas mais duras contra a Rússia".

A ONG argumenta que essas falas vão além de uma simples defesa da paz e configuram um posicionamento político explícito, o que seria incompatível com o cargo de presidente da entidade máxima do futebol mundial.

A resposta da Fifa e do COI

Até o momento, nem a Fifa nem o COI se pronunciaram oficialmente sobre a denúncia. A Fifa, em comunicados anteriores, sempre defendeu que Infantino atua em defesa dos valores do esporte e que suas declarações estão dentro do direito de expressão. O COI, por sua vez, afirmou que "analisará a denúncia de acordo com seus procedimentos internos" entenda o papel do COI na mediação de conflitos esportivos.

A Comissão de Ética do COI é composta por nove membros, incluindo juristas e ex-atletas, e tem poder para recomendar sanções que vão desde uma advertência até a suspensão temporária de dirigentes. No entanto, especialistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que o caso é complexo, porque a Fifa não é uma entidade olímpica, embora o futebol seja um esporte olímpico, a federação internacional tem autonomia em relação ao COI.

Implicações para o esporte global

O caso reacende o debate sobre o papel de dirigentes esportivos em temas políticos. Nos últimos anos, a neutralidade do esporte tem sido testada por conflitos como a guerra na Ucrânia, a crise na Faixa de Gaza e as sanções contra atletas russos e bielorrussos. A denúncia contra Infantino pode estabelecer um precedente: se o COI decidir investigar, outros dirigentes podem se tornar alvos de ações semelhantes.

Para a Democracy Without Borders, o objetivo não é punir Infantino pessoalmente, mas reforçar que o esporte não pode ser usado como plataforma política. "Se a Fifa quer manter sua credibilidade, precisa voltar a ser neutra", disse o diretor da ONG em comunicado.

Perguntas Frequentes

O que é a Democracy Without Borders?

É uma ONG suíça que monitora a atuação de organizações internacionais, incluindo entidades esportivas, em temas de governança e direitos humanos. Ela já havia feito denúncias semelhantes contra a Fifa em 2022, por suposta falta de transparência.

O COI pode punir Infantino?

Sim, mas a punição depende de uma investigação formal. O COI pode recomendar sanções, mas a Fifa não é obrigada a acatá-las, já que é uma entidade independente.

Infantino já foi alvo de outras denúncias?

Sim. Em 2022, a mesma ONG denunciou Infantino ao Conselho de Ética da Fifa por suposto conflito de interesses em contratos de patrocínio. O caso foi arquivado.

O que diz a Carta Olímpica sobre neutralidade?

O artigo 50 proíbe manifestações políticas em eventos olímpicos, mas não regula diretamente a atuação de dirigentes fora desses eventos. A denúncia argumenta que o princípio deve ser aplicado também a presidentes de federações.

Qual o próximo passo?

O COI deve se pronunciar em até 30 dias sobre a abertura de uma investigação. Se aberta, a comissão de ética terá 90 dias para apresentar um relatório.

Enquanto isso, volto à minha fila no banco, onde o robô agora me pergunta se quero ouvir uma música enquanto espero. Tudo digital, menos a paciência.

Tomás Wenzel

Editoria Destaques

Tomás Wenzel cobre o setor de meios de pagamento e crédito no Blog Sem Juízo. Análises técnicas, sem viés comercial.