Eu estava no meio de uma fila de banco, esperando minha vez de ser atendido por um robô que insistia em me chamar de "cliente premium", quando recebi a notificação no celular: ONG aciona o COI contra Infantino. Pensei: até no futebol a burocracia virou esporte olímpico.
Uma organização não governamental suíça, a Democracy Without Borders, protocolou uma denúncia formal no Comitê Olímpico Internacional (COI) contra Gianni Infantino, presidente da Fifa. A acusação é de quebra de neutralidade política, um princípio que, em tese, deveria ser tão sagrado quanto a regra do impedimento. Segundo a ONG, Infantino teria usado seu cargo para fazer declarações públicas sobre o conflito na Ucrânia, posicionando-se a favor de uma das partes, o que violaria o artigo 50 da Carta Olímpica, que proíbe manifestações políticas em eventos e entidades esportivas.
A denúncia foi enviada à Comissão de Ética do COI, que agora precisa decidir se abre uma investigação. A Democracy Without Borders alega que Infantino, ao comentar a guerra na Ucrânia durante uma entrevista em 2023, teria dito que "a Fifa está do lado da paz, mas não pode ser neutra quando a agressão é clara", uma frase que, para a ONG, soa como um desvio da imparcialidade esperada de um dirigente esportivo global.
O princípio da neutralidade no esporte
A neutralidade política é um dos pilares do movimento olímpico. A Carta Olímpica, em seu artigo 50, estabelece que "nenhuma manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em qualquer local, recinto ou outra área olímpica". A Fifa, embora não seja diretamente subordinada ao COI, adota princípios semelhantes em seus estatutos, que determinam que a entidade deve manter-se neutra em questões políticas.
A denúncia contra Infantino ganhou tração justamente por tocar nesse ponto: até onde um presidente de federação esportiva pode se manifestar sem violar o compromisso de neutralidade? Para a ONG, a linha foi ultrapassada quando Infantino, em vez de apenas condenar a guerra de forma genérica, teria atribuído responsabilidades a um dos lados do conflito.
As acusações específicas
A Democracy Without Borders, que há anos monitora a atuação de entidades esportivas em temas geopolíticos, listou três declarações públicas de Infantino que, segundo a ONG, configuram quebra de neutralidade:
- Em março de 2023, durante o Congresso da Fifa, Infantino disse que "a Fifa não pode ficar indiferente diante da agressão".
- Em maio de 2023, em entrevista a um jornal italiano, afirmou que "a Rússia é a responsável pela crise".
- Em setembro de 2023, em evento da ONU, pediu "sanções esportivas mais duras contra a Rússia".
A ONG argumenta que essas falas vão além de uma simples defesa da paz e configuram um posicionamento político explícito, o que seria incompatível com o cargo de presidente da entidade máxima do futebol mundial.
A resposta da Fifa e do COI
Até o momento, nem a Fifa nem o COI se pronunciaram oficialmente sobre a denúncia. A Fifa, em comunicados anteriores, sempre defendeu que Infantino atua em defesa dos valores do esporte e que suas declarações estão dentro do direito de expressão. O COI, por sua vez, afirmou que "analisará a denúncia de acordo com seus procedimentos internos" entenda o papel do COI na mediação de conflitos esportivos.
A Comissão de Ética do COI é composta por nove membros, incluindo juristas e ex-atletas, e tem poder para recomendar sanções que vão desde uma advertência até a suspensão temporária de dirigentes. No entanto, especialistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que o caso é complexo, porque a Fifa não é uma entidade olímpica, embora o futebol seja um esporte olímpico, a federação internacional tem autonomia em relação ao COI.
Implicações para o esporte global
O caso reacende o debate sobre o papel de dirigentes esportivos em temas políticos. Nos últimos anos, a neutralidade do esporte tem sido testada por conflitos como a guerra na Ucrânia, a crise na Faixa de Gaza e as sanções contra atletas russos e bielorrussos. A denúncia contra Infantino pode estabelecer um precedente: se o COI decidir investigar, outros dirigentes podem se tornar alvos de ações semelhantes.
Para a Democracy Without Borders, o objetivo não é punir Infantino pessoalmente, mas reforçar que o esporte não pode ser usado como plataforma política. "Se a Fifa quer manter sua credibilidade, precisa voltar a ser neutra", disse o diretor da ONG em comunicado.
Perguntas Frequentes
O que é a Democracy Without Borders?
É uma ONG suíça que monitora a atuação de organizações internacionais, incluindo entidades esportivas, em temas de governança e direitos humanos. Ela já havia feito denúncias semelhantes contra a Fifa em 2022, por suposta falta de transparência.
O COI pode punir Infantino?
Sim, mas a punição depende de uma investigação formal. O COI pode recomendar sanções, mas a Fifa não é obrigada a acatá-las, já que é uma entidade independente.
Infantino já foi alvo de outras denúncias?
Sim. Em 2022, a mesma ONG denunciou Infantino ao Conselho de Ética da Fifa por suposto conflito de interesses em contratos de patrocínio. O caso foi arquivado.
O que diz a Carta Olímpica sobre neutralidade?
O artigo 50 proíbe manifestações políticas em eventos olímpicos, mas não regula diretamente a atuação de dirigentes fora desses eventos. A denúncia argumenta que o princípio deve ser aplicado também a presidentes de federações.
Qual o próximo passo?
O COI deve se pronunciar em até 30 dias sobre a abertura de uma investigação. Se aberta, a comissão de ética terá 90 dias para apresentar um relatório.
Enquanto isso, volto à minha fila no banco, onde o robô agora me pergunta se quero ouvir uma música enquanto espero. Tudo digital, menos a paciência.