….nem vilões nem heróis os professores são….

O texto de hoje no CULTURA SEM JUÍZO (As penas da lei) é de Jéssica da Mata, excepcional colega de Pós Graduação da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, atualmente Advogada e Mestre em Direito Penal e Criminologia. O texto é uma homenagem em forma de reflexão, ao dia dos professores, função na qual ela já dá seus primeiros e promissores passos.

Nem vilões nem heróis os professores são

Foi numa tarde de outubro, cerca de 10 anos atrás. O dia estava inacreditavelmente quente e minhas aulas no ensino médio estavam acabando. Foi quando eu resolvi fazer uma revolução no meu cotidiano, dessas que não interessam nem devem interessar para mais ninguém, mas que representam uma transformação profunda, talvez fruto de pequenas metamorfoses acumuladas da minha maneira de lidar com o mundo.

Foi a primeira vez em três anos de colegial que eu usei um vestido para ir à escola. Nós não tínhamos uniformes no antigo CEFET, mas calça jeans com camiseta era o meu uniforme de escolha, até que tive coragem de usar um vestido. Era um vestido jeans com saia rodada e botões que partiam da cintura até a gola estilo neo-romântico (que está super in novamente e me faz pensar que deveria tê-lo guardado).

Nunca fui tímida, pelo contrário, minha assertividade e desinibição eram patentes e já haviam persistido a tantas desventuras que ninguém, nem mesmo eu, duvidava serem pilares da minha personalidade. A aparente aversão aos vestidos vinha de uma questão específica com as minhas pernas: os meus joelhos curvos que me acompanhavam desde a infância haviam me transformado na “menina da perna torta”, “curupira” e etc. comentários que sempre rolaram mas que apenas tomaram a forma de assédio (odeio o termo bullying) no início do ensino médio.

Não vale a pena explorar as nuances desse trauma já superado, a questão que costuma me remeter a esse dia é outra. Aquele que havia sido escolhido como o momento para uma pequena guinada pessoal se tornou um ponto de reflexão sobre a relação professor-aluno que eu carrego até hoje.

Caminhei do terminal urbano da Armênia até a escola, e dos portões da Rua Pedro Vicente até o prédio, passando pelos olhos julgadores dos meus colegas (olhares imaginários, é claro, pois não me atrevi a olhar para os lados temendo identificar, nos seus olhos, a zombaria diante das minhas pernas tortas expostas). Pensei que o pior já havia passado quando, meia hora adiantada, já me aproximava da sala de aula. Mas antes que eu chegasse, cruzei com duas professoras em um corredor, eram a minha professora de redação e a minha professora de literatura.

A professora de literatura não sabia, mas havia se tornado a minha favorita desde que vi sua aula sobre Jean-Paul Sartre e o existencialismo. Eu não sou capaz de me lembrar detalhes do conteúdo, mas lembro das palavras rabiscadas a giz branco na lousa verde e da sensação de que eu estava diante de algo grande, um momento que me transformaria para sempre.

Nem por um segundo pensei que Sartre era necessariamente bom ou ruim, mas que escreveu em um certo período da história e que eu teria condições de interpretá-lo criticamente, inclusive em termos ético-políticos, quando o lesse. Não sei se elaborei assim de cara, mas lembro que considerei a aula profunda e didática do início ao fim. Tê-la assistido na mesma semana que eu havia visto o Tony de Skins lendo “A náusea” foi a cereja do bolo.¹ Foi tudo que eu poderia querer no auge dos meus quase 18 anos.

Minha relação com a professora de redação não era tão amistosa, eu achava que ela não gostava de mim e que ela teria deixado isso muito claro quando me deu uma nota baixa em um trabalho que, como ela mesma havia reconhecido, estava excelente. Ela disse que descontou nota do trabalho porque eu “faltava demais”, o que eu considerei uma injustiça pois eu já havia sofrido desconto, pelas faltas, na nota de participação. Quer dizer, eu fui punida duas vezes pelo mesmo fato. Não desprezo o peso que pequenos acontecimentos como esse tiveram na minha escolha de carreira.²

Bis in idem à parte, era verdade que eu faltava bastante nas aulas de redação, comparecia apenas o suficiente para não bombar por faltas. O problema é que as aulas de redação eram às segundas-feiras e que depois da aula havia uma janela enorme na grade, seguida por aulas de geografia. Eu morava em Guarulhos e estudava no Canindé das 13 às 18 horas. Eu pegava um ônibus que demorava, em média, 2 horas para chegar e 2 horas e meia para voltar. A ideia de fazer todo esse trajeto apenas para fazer duas aulas de redação, esperar horas até mais duas aulas de geografia era demais para mim. Eu amava as duas matérias, as estudava com prazer e me dava bem nas avaliações mesmo sem ir nas aulas. Faltar fazia muito sentido para mim, mas isso incomodava demais minha professora de redação, acho que ela se sentia desprestigiada ou algo assim.

Sem saber de nada disso, no dia da minha ousadia fashion, assim que me viu no corredor a professora de redação disse “nossa, Jéssica, você resolveu vir de Geisy hoje?” No começo eu não entendi o que ela quis dizer. No percorrer sofrido de um segundo que pareceu uma eternidade, vasculhei minha memória e consegui fazer a conexão entre eu estar de vestido e a polêmica sobre o uso de vestido em sala de aula, surgida a partir do escracho machista sofrido pela Geisy Arruda na Uniban de São Bernardo naquele mês.³ Foi aí que eu compreendi a reprovação moral em sua voz e senti muita vergonha.

“Esse vestido é inadequado? Não pensei que teria problema. Tanta gente vem de vestido. Nossa, e ela já não gosta de mim, imagina agora. Por que eu fiz isso? ” Minha impressionante capacidade de duvidar do meu próprio bom senso estava a todo vapor. Especialmente porque foi a minha professora quem disse. O julgamento que eu esperava não veio dos colegas, mas dela, uma pessoa adulta a quem cabia me avaliar.

Antes que eu pudesse fugir humilhada e convencer a mim mesma de nunca mais usar vestido ( não mais pela perna torta mas pela pele exposta que, ao que parecia, era ultrajante em si), a professora de literatura interveio dizendo “eu acho que está linda, e está muito calor mesmo, um calor insuportável, pode usar vestido sim”.

A professora de redação se calou. Não sei se foi a senioridade da professora de literatura que impôs uma espécie de temor hierárquico ou se a professora de redação se deu conta da peçonha em seu comentário, ou os dois. O que eu sei é que até hoje esse episódio me lembra o quanto a relação entre professor e aluno é delicada e o quanto é importante que professores consigam se relacionar com os alunos sem projetar neles suas próprias frustrações, especialmente quando ressentimentos e expectativas não- atendidas reproduzem opressões como o machismo.

Esse dia foi bem marcante para mim. A ação da professora de redação, a intervenção da professora de literatura, a quem eu passei a admirar ainda mais, tudo isso não saiu mais da minha cabeça. Eu acho que é porque essa foi a única vez que eu me senti atacada por um docente, em uma situação que misturava o julgamento moral da minha escolha de roupa e uma desconfiança em relação ao meu comprometimento com o aprendizado, algo que eu, sempre muito aplicada, nunca havia experimentado.

Eu era uma aluna de classe média baixa, moradora da periferia, de pele branca, criada em uma família bem estruturada que apoiava meus estudos e eu nunca havia sido desacreditada por um docente antes. Dói quando penso em outros sujeitos para quem essa relação tenha sido mais tensa e sofrida. Dói mais ainda pensar que hoje há menos recursos e a situação de alunos, professores e escolas tende a piorar.

Não guardo mágoas da professora de redação, não acho que depois de tanto tempo e sem ter qualquer relação atual me caiba condená-la ou absolvê-la por nada, naquelas circunstâncias o melhor que ela pode ter feito é não repetir aquele erro. Não tenho como saber se foi o caso, mas não temo desgastar minhas recordações. Eu gosto de revisitar esse episódio para me lembrar daquela que se tornou minha primeira grande inspiração para a docência, minha professora de literatura, as suas aulas, sua maneira de falar, seus cabelos brancos e viçosos.

Lembro-me sempre dela. Nossas interações sempre emergem quando me ponho a refletir sobre a relação aluno-professor, o ofício de ensinar, o mérito e a responsabilidade que esses profissionais assumem. Para mim, que estou à procura de um emprego como professora, pensar nisso nunca é demais e os bons exemplos são fundamentais.

Feliz dia dos professores aos meus [futuros] colegas de profissão que tenham chegado ao fim do texto, em especial para a Suely Corvacho, minha saudosa professora de literatura.

O artigo foi originalmente publicado em sua página pessoal no Medium

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[1] Skins era uma série adolescente da moda que eu amava e Tony era um dos personagens principais da primeira temporada.

[2] Eu sou formada em direito e mestre em direito penal. Há uma regra do direito penal que proíbe a punição reiterada de uma mesma conduta, pois isso abriria caminho ao abuso do poder de punir. No juridiquês, tradicionalmente, a ocorrência de uma dupla punição pelo mesmo fato é denunciada por sua fórmula em latim, bis in idem, que significa “repetição sobre o mesmo”.

[3] O caso da Geisy Arruda, vítima de um escracho machista por estar trajando um vestido curto na sua faculdade havia acabado de acontecer. Ela foi perseguida por outros alunos que, aos berros, a chamaram de “puta” até que se retirasse do prédio. Essa matéria traz detalhes do caso: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2009/11/646253-aluna-hostilizada-na-uniban-quer-punicao-e-retirada-de-videos-da-web.shtml

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