….a balada de adam henry: os processos que impactam os juízes….

 

A
Balada de Adam Henry e os processos que impactam os juízes

 

 

 

Enquanto redige os fundamentos de uma sentença que
envolve a educação religiosa de duas meninas judias, na disputa familiar entre
ortodoxia e liberalismo dos pais, a juíza Fiona Maye recebe uma inusitada
proposta de seu marido, pedindo-lhe anuência para um relacionamento
extraconjugal.

É assim, confrontando as cisões das famílias alheias e da
própria juíza, que Ian McEwan apresenta as cartas de seu novo romance, A Balada de Adam Henry. Recheado de
dilemas morais, baseado em fatos ocorridos na justiça britânica (cuja
inspiração relatou em artigo publicado na Folha de S. Paulo, 12/10/14), o
romance chama a atenção pela forma humana com que descreve a juíza e os
impactos de suas dúvidas e decisões na própria vida.

Para nosso cotidiano acostumado a tratar juízes por suas
negligências e abusos, excessos ou privilégios, e de outro lado, pelo heroísmo
salvacionista de suas prisões, é sempre interessante ler sobre a tarefa humana
de julgar. Por mais que os números nos tornem cada vez mais autômatos e
provoquem, em uns mais em outros menos, a renúncia do pensar, e mais ainda a do
sentir, não há como esconder a todo aquele que pretende se tornar juiz (pelo
prestígio, pela honra ou pelas benesses) que julgar é, sobretudo, sofrer.

Há muito de rotina que reconhecemos ali, independente da
origem britânica dos relatos: a incansável busca pela motivação da sentença; o
erro judiciário que marca uma carreira; o provimento de urgência, cuja
importância é inversamente proporcional ao tempo que o magistrado tem para
decidi-lo.

A piéce de
resistence
do livro é o caso de Adam Henry, testemunha de Jeová de 17 anos
que precisa e rejeita, tal como sua família, por questões religiosas,
transfusões de sangue imprescindíveis para o tratamento de uma grave doença. É
nesse ponto que o autor deixa correr uma discussão ética sobre religião e
liberdade, juventude e autonomia e, enfim, o papel do juiz na ponderação destes
princípios e na tutela da vida. Enquanto a juíza decide este caso,
conjuntamente com o futuro de seu próprio casamento, é que se revelam as marcas
de outros dilemas morais que o direito colocou-lhe à frente sem cerimônia, como
uma dramática separação de irmãos siameses.

O cotidiano forense também é composto de decisões mais
simples, algumas repetitivas e questões processuais ou acordos que servem de
anteparo à decisão de mérito. A licença poética do romance inunda a vara da
família apenas de dilemas morais de larga envergadura, mas é justamente com estes
casos que o autor nos mostra os preciosos momentos em que a vida bate insistentemente
na porta do juiz. E que o essencial para o seu trabalho não se restringe a
conhecer bem o direito -condição necessária, não suficiente- mas também ouvir e
saber reconhecer tais chamados.

A jurisdição é custosa, pesarosa, sofrida.

Nenhum juiz sai incólume das decisões que profere –e a
ideia de que possamos ou, pior ainda, que devamos nos tornar insensíveis no
decorrer dos anos, com a experiência que permite apreender sem tantos temores
ou decidir sem hesitar, é apenas a retórica de quem está enganado. Ou enganando.

Não se pode abstrair que as discussões morais do livro repousam
basicamente nas entranhas das crenças religiosas e sua aparente contraposição a
liberdades ou direitos. Mas para a formação do caráter da protagonista o mérito
das decisões parece importar menos do que o processo. A Balada perscruta, sobretudo, o método: a dúvida, o contraditório, o
raciocínio -não exatamente nesta ordem. A disposição de Fiona de se inteirar
das verdades em disputa e o efeito que essa busca lhe causa.

A despeito de se basear em casos que efetivamente
aconteceram, o livro está longe de ser um documentário da vida real. Mestre na
ficção, e principalmente nos detalhes que em sua escrita sempre impulsionam as grandes
emoções, McEwan dá um colorido especial e todo peculiar à relação entre Fiona e
Adam, em uma espécie de caricatura, exagerada, das influências que um juiz é
capaz de absorver de alguma das partes.

Que uma vara de família seja repleta de histórias de
vida, mais ricas do que a própria ficção, a juíza e escritora Andrea Pachá
havia nos mostrado, em A vida não é justa
e Segredo de Justiça, com os delicados
e sensíveis relatos de situações que teve de compreender e arbitrar. E foi
justamente lendo decisões de vara de família de um juiz amigo, que McEwan descobriu
esse “tesouro oculto de dramas pessoais e complexidade moral”, onde reconheceu
histórias que poderiam muito bem rechear as páginas de romances de Jane Austen,
Tolstoi, Henry James entre outros.

O romancista pode se dar ao luxo de reescrever histórias
e escolher finais que só pesam mesmo a seus leitores. O juiz não. O maior
mérito do livro é entender isso.

Um comentário sobre ….a balada de adam henry: os processos que impactam os juízes….

  1. Roberto Luiz Corcioli Filho 26 de janeiro de 2015 - 15:36 #

    Marcelo, bela resenha. O livro, que já estava nas primeiras colocações de minha lista de espera, certamente chegou à posição de prioridade. Assim que acabar "As aventuras do soldado Svejk" (retrato delicioso da imbecilidade no ambiente militar – que nos faz pensar em paralelos muito interessantes para uma realidade mais próxima a nossa), irei à Balada. Abs.

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