….sensacionalismo e dignidade humana…

De que adianta o Estado tutelar a dignidade humana se ela é violada todo dia às seis da tarde em rede nacional?

Corre pelas redes sociais o vídeo de uma entrevista abusiva e constrangedora do programa Brasil Urgente, da Band Bahia, que indigna quem quer que tenha estômago para assisti-la.

“Paulo Sérgio estuprador”, grita a repórter Mirella Cunha, brandindo o microfone em direção a um jovem negro, preso em flagrante, e exposto às câmeras.
De pouco adiantou o fato de o rapaz tentar se defender da “acusação” da jornalista. A emissora já tinha desde logo o seu veredito. A alegação do preso, cuja face não escondia marcas recentes de agressão, vinha tabulada como “chororô” pelo letreiro do programa.
Se usar a situação indefesa de um preso algemado e desassistido para constrangê-lo a assumir a prática de um crime em rede nacional já não fosse suficientemente abusiva, a jornalista ainda gasta mais da metade da “entrevista” para humilhá-lo em razão de sua ignorância.
O jovem confunde exame de corpo de delito, que implora seja feito na vítima para provar sua inocência, com o exame de próstata. E a jornalista o faz repetir o erro várias vezes, apenas para usufruir, com fartos risos, da falta de cultura alheia. Como se o desprezo pelo ser humano à sua frente fosse algum demonstrativo maior de cultura ou de educação.
A repórter foi severamente criticada nas redes sociais e recebeu até o repúdio por escrito de jornalistas baianos.
Mas a verdade é que, tirando as proporções humilhantes do episódio, o constrangimento e o desprezo pela dignidade humana são corriqueiros em programas sensacionalistas de fim de tarde como esse.
Nem o direito à informação pode justificar tamanho abuso.
Trata-se, na verdade, de usar o ser humano, em um momento de absoluta fraqueza, como forma de entretenimento, coisa que os imperadores romanos já sabiam muito bem como fazer.
A promiscuidade da imprensa com a polícia deturpa o trabalho de ambos –no programa em questão, por exemplo, um jornalista menos preocupado com a humilhação talvez buscasse indagar sobre as marcas de agressão estampadas no rosto do preso.
O estímulo à punição desenfreada, o linchamento midiático, o apelo repressor, enfim, são a tônica dos programas que, desde o sucesso de “O Povo na TV”, nos anos oitenta, se reproduzem em quase todas as emissoras.
Seus apresentadores viram celebridades, quando não políticos, e seus índices de audiência recompensam os estratosféricos salários.
Pouco importa se traduzem ou escondem realidades, se provocam consequências nocivas aos envolvidos, se expõem situações vexatórias à vista de todos.
Nada disso interessa mais do que atiçar a curiosidade mórbida do espectador, resgatar no ser humano o que ele tem de mais perverso, e, enfim, jogar a culpa nele mesmo por sucumbir a este apelo.
Como programas supostamente jornalísticos, nem sequer sofrem limitações de horário, estando liberados para exibição de suas violações a crianças adolescentes. Mas isso será mesmo jornalismo?
É preciso repensar o tratamento de situações que claramente afrontam limites éticos, regras constitucionais para as empresas concessionárias e as condições impostas à polícia para a custódia legal de presos.
Afinal, de que adianta que o Estado tenha, entre seus principais objetivos, a promoção da dignidade humana, se ela pode ser violada todos os dias às seis da tarde?

4 Comentários sobre ….sensacionalismo e dignidade humana…

  1. C Sidney 23 de maio de 2012 - 22:20 #

    Pode parecer absurdo o meu comentário. Mas sugiro uma leitura. Antiga. Mas tem quase que os mesmos ingredientes desta notícia de agora: intolerância, pré-julgamento, etc. E o verdadeiro e honrado, muito diferente do atual. Indico, para quem ainda não leu e só conhece o jornalismo de hoje, uma matéria histórica: "Justiça à noite", da jovem Martha Gellhorn, publicado no jornal americano "The Spectator", em agosto de 1936. Por acaso a repórter foi testemunha e descreveu o que viu, o linchamento de um negro por um suposto estupro a uma mulher branca, reconhecida pelos próprios linchadores como pessoa sem muita credibilidade. (Mais tarde, muito mais tarde, Martha Gellhorn foi mulher de Ernest Hemingway). Pode ser lido hoje no livro "O grande livro do jornalismo", de José Olympio Editora (fls. 135). Ali naquelas poucas linhas Martha ensina que a melhor descrição de uma notícia é transmitir rigorosamente a verdade. Um abraço.

  2. Resumos, dicas e maçetes!!! 25 de maio de 2012 - 01:55 #

    Excelente reflexão!!! Sou de Recife-PE e aqui temos três desses programas – em canais locais – na hora do almoço, além do já citado Brasil Urgente!!É a teoria do direito penal máximo, em sua modalidade mais indecente, quem nos acompanha na hora do almoço!!!

    Gostaria de expor o seu texto – com a devida citação – em meu blog pessoal (resumosjuridicos.com).

    Yuri.

  3. Acarajé Sem Dendê 31 de maio de 2012 - 18:20 #

    O episódio da repórter da Band Bahia, Mirella Cunha, tem provocado discussões acaloradas nas redes sociais. Porém, tenho notado um direcionamento equivocado nos debates. O foco no racismo deve ser desvinculado.
    É importante compreender que cerca de 80% da população soteropolitana é composta por negros, dos quais, a maioria foi empurrada para a marginalidade. Logo, os crimes de estupro, roubo, latrocínio, entre outros, são de competência dessa maioria. Os crimes de colarinho branco… Deixemos com os brancos.
    O problema mais grave identificado naquele espetáculo vira-lata (os cães que me perdoem) é uma modalidade de jornalismo praticado na Bahia que, tem como carro chefe, avacalhar com a cara de pequenos meliantes desconhecedores de seus direitos e isentos de bons advogados como Marcio Thomáz Bastos.o procurador da República, Wladimir Aras, ofereceu denúncia à Procuradoria Geral de Justiça do estado da Bahia, e a jornalista provavelmente será desligada da emissora.
    Que isso sirva de lição e exemplo para que episódios como esse não se repitam. Mas para isso é importante que a comunidade fique atenta a esses programas que promovem a ridicularização alheia.
    Não se pode deixar de lado a relação entre grupos de comunicação e a polícia. “Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados a sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão em escandalosa parceria com agentes policiais”. Essa é uma fração da carta aberta, elaborada por um grupo de jornalistas, encaminhada ao governador Jacques Wagner. Qual é o retorno, seja ele financeiro ou de qualquer outra forma, que esses agentes policiais têm? E o que o delegado da 12° Delegacia de Itapoan tem a falar sobre isso?
    Na carta pode-se perceber também a relação entre esse circo e o campo político. “Há uma evidente vinculação entre esses programas e o campo político, com muitos dos apresentadores buscando, posteriormente, uma carreira pública, sendo portanto uma ferramenta de exploração popular com claros fins político-eleitoral.
    Programas como esse devem reformatar o tipo de jornalismo que praticam, ou encerrar as suas atividades.

    http://www.acarajesemdende.blogspot.com

  4. Anônimo 8 de junho de 2012 - 03:25 #

    Caro Marcelo, sabe que lição vejo nesse episódio? É que isso é fruto da herança maldita que os militares nos deixaram. Violar a dignidade da pessoa humana no Brasil virou "lei". Quem o faz sabe que não será punido por isso. Olha, todos os dias tenho notícias de pessoas que foram, e neste momento estão sendo, torturadas em delegacias desse país.
    Me enoja saber que juízes e promotores sabem dessa triste realidade e convalidam esses procedimentos ilegais/inconstitucionais, como se fossem praticas aceitáveis. Kássio Costa, Advogado.

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