….VEJA quer calar a democracia….

Descompromisso com razão nem é o que mais ressalta no artigo -a foto gigantesca de pupilos de Hitler, só se explica como um ato falho.

Tolice suprema, coleção formidável de bobagens, condoreirismo cafona.

Com esses e outros adjetivos ainda piores, o jornalista Reinaldo Azevedo iniciou, em seu blog, uma onda de ataques da revista VEJA à Associação Juízes para a Democracia (AJD).

Nos posts que buscavam detonar a associação por uma nota crítica à ação da Polícia Militar na USP, sobrou até para os educadores que seguem Paulo Freire: “idiotas brasileiros e cretinos semelhantes mundo afora”.

O nível do artigo já se responde por conta própria.

Todavia, na edição impressa que veio às bancas no sábado último, o editor-executivo da revista subscreveu um texto que, sem qualquer constrangimento ou escrúpulo político, comparou a associação a um tribunal nazista.

O descompromisso com a razão nem é o que mais ressalta no artigo -a foto gigantesca de pupilos de Hitler, fora de tom ou propósito, só se explica como um ato falho. No artigo, Carlos Graieb utiliza expressões que se encaixariam perfeitamente no ideário nazista: propõe dissolver a associação “política” ou impedir que seus membros usem a toga.

Reinaldo Azevedo, com ainda menos pruridos no mundo virtual, explicitou, numa ação que evoca o macarthismo, os nomes de todos os diretores, representantes e membros de conselhos da entidade, alertando leitores para que jamais aceitem ser julgados por estes juízes.

Que competência ou legitimidade para a posição soi-disant de corregedor ele tem não se sabe. Mas seus seguidores foram instados a identificar os juízes associados pelo próprio colunista, que deu status de artigo a mensagem de um advogado falando do desembargador ‘liberal’ apreciador de samba.

VEJA está aturdida e indignada com a afirmação de que existe direito além da lei. Os nazistas também ficavam, porque as barbáries escritas no período mais negro da história da humanidade eram legais. Jamais deixaram de ser barbáries por causa disso.

A prevalência dos princípios constitucionais é o que propunha, sem grandes novidades, a nota da Associação Juízes para a Democracia. Se juízes não podem fazê-lo em um estado democrático de direito, na tutela da Constituição que prometeram defender, algo definitivamente está errado.

Mesmo para quem conhece a linha editorial de VEJA, cuja partidarização na política é sobejamente criticada, espanta que o interesse em calar quem pensa de outra forma, parta justamente de um órgão de imprensa.

Que a falta de pluralismo de suas páginas já fosse, por assim dizer, um oblíquo atentado à liberdade de expressão, o explícito intuito de extirpar opiniões contrárias não deixa de ser aterrorizador. Sob esse prisma, lembrar o nazismo não é mais do que medir o outro com a própria régua.

A Associação Juízes para a Democracia tem vinte anos de serviços prestados ao debate institucional na magistratura e fora dela – e eu me orgulho de fazer parte dessa história quase por inteiro.

A AJD tem entre seus objetivos o respeito incondicional ao estado democrático de direito e jamais deixou de denunciar quando este se fez ameaçado. Bate-se sem cessar pela independência judicial e é militante na consideração do juiz como um garantidor de direitos.

A promoção permanente dos direitos humanos, compartilhada com inúmeras outras entidades da sociedade civil, sempre incomodou aos que se candidatam a porta-voz dos poderosos. Mas recusamos o propósito de quem quer fazer da democracia apenas uma promessa vazia.

A associação nunca se opôs a criticar o elitismo no próprio Judiciário, nem temeu se mostrar favorável à criação de um órgão para exercer o controle externo. Tudo por entender que desempenhamos, sobretudo, um serviço essencial ao público – o que levou a AJD a participar da Reforma do Judiciário propondo, entre outros temas, o fim das sessões secretas e das férias coletivas.

Anticorporativista, a associação jamais defendeu valores em benefícios próprios, o que pode ser incompreensível em certos ambientes. Recentemente, bateu-se pela legalidade da instauração de processos administrativos contra juízes pelo Conselho Nacional de Justiça, na contramão de interesses de classe.

Em vinte anos, seus membros têm sido convidados a participar de vários debates no Poder Judiciário, no Congresso Nacional e também na mídia.

O exercício contínuo da liberdade de expressão, que fascistas de todo o gênero sempre pretenderam mutilar, não vai ceder ao intuito de quem pretende impor sua visão e seus conceitos como únicos.

VEJA não está em condições de ensinar estado de direito, se desprestigia a liberdade de expressão.

14 Comentários sobre ….VEJA quer calar a democracia….

  1. Juliana Lima 7 de dezembro de 2011 - 19:27 #

    O Sr. Reinaldo Azevedo não passa de um completo boçal. Arrogante acha-se o dono da verdade. Tanto a Associação dos Juizes para a Democracia, quanto o Movimento do Ministerio Publico Democratico prestaram relevantes serviços à sociedade, investigando figurões, antes intocáveis; libertando trabalhadores do regime de (semi) escravidão. Mas, a contribuição maior destas Entidades é uma visão nova e aberta do Direito e a luta contra o ranço que, ainda, existe no Judiciario Brasileiro.

  2. Lilian 7 de dezembro de 2011 - 22:37 #

    Grande, Semer!

  3. C Sidney 8 de dezembro de 2011 - 09:19 #

    Faz muitos anos. A Veja, quando começoua desgringolar, publicou uma reportagem na sua páia "ciência", dando conta de que certo laboratório (nem se falava ainda em célula tronco, etc), havia coneguido juntar o DNA do boi com o DNA do tomate e que a carne resultante deste "invento" já sairia com molho de tomate. Não acredita? O episódio chamou-se "Boimate"; faça uma pesquisa no Gogle e descobrirá. Eu, bicho do mato, de meia cultura, no ato li e dei risada. A noticia foi publicada com seriedade. Pensei, que diabos de revista é essa que leio e confio é capaz de publicar um troço desse? Dai pra frente fiquei com pé-atrás. Mais tarde a Veja publicou outra besteira, ligado com o Cazuza, expressando um preconceito nunca visto antes em nossa imprensa. Um horror. Parei de assinar a revista e nem leio. O caminho da Veja não tem retorno, tá caindo noum fundo poço e ainda não chegou ao chão. Vem mais besteira por ai, tornou-se uma piada na imprensa. Um abraço

  4. Augusto J. Hoffmann 8 de dezembro de 2011 - 12:18 #

    A Veja, como tantos outros, é um veículo, cujos alicerces,foram sedimentados no período mais obscuro da história brasileira: o regime militar golpista de 64.

    Portanto a Veja não detém credibilidade,e nem o escriba em questão, para fundamentar o cerceamento à liberdade de expressão.

    A melhor sentença meritíssimo é condená-lo ao ostracismo perpétuo. Nem sequer replicar suas sandices. A escuridão, sem platéia, é o melhor lugar para quem não soma à cidadania e democracia.

  5. Shlomo 8 de dezembro de 2011 - 19:02 #

    Eu, cidadão brasileiro, fico com MUITO medo quando uma associação de JUÍZES diz que há pessoas acima da Lei.

    Fico realmente indignado de saber que JUÍZES praticam proselitismo político com a vida de outrem. Logo a classe de pessoas que deveria ZELAR pelo CUMPRIMENTO ESTRITO das Leis, as joga no chão e desprestigia…

    Lamentável. Tomem jeito!!

  6. Marcelo Semer 8 de dezembro de 2011 - 19:59 #

    Shlomo: os juízes alemães zelaram pelo "cumprimento estrito" das leis durante o nazismo. Não me parece que sejam exemplos a louvar. Já os juízes da Corte Suprema americana faziam "proselitismo político" quando fulminaram as discriminações contra negros, que eram leis em muitos Estados americanos. Quais destes juízes estão mais comprometidos com o estado de direito?

  7. Xad Camomila 9 de dezembro de 2011 - 00:05 #

    Resumo da ópera:

    VEJA
    Não compre.
    Se comprar, não leia.
    Se ler, não acredite.
    Se acreditar, relinche.

  8. Leonardo 9 de dezembro de 2011 - 10:38 #

    Não Dr. Marcelo, veja não quer calar a democracia, é a esquerda que quer calar a imprensa.

  9. Pedro 9 de dezembro de 2011 - 10:43 #

    Curiosamente, o texto não traz questionamentos quanto ao conteúdo e afirmações do artigo escrito por Reinaldo Azevedo. Pretende desqualificá-lo por considerá-lo "violento". Ademais, a Veja, assim como boa parte das revistas, inclusive aquelas mais à esquerda no espectro político, de Carta Capital a Caros Amigos, não abrem espaço a vozes dissonantes.
    Na próxima tentativa, sr. Marcelo Semer, faça "um vermelho e azul", como faz o criticado articulista, pois aí ficarão demonstradas suas críticas. Da forma como fez, não passa de uma débil defesa da AJD, a qual respeito por outros momentos e posicionamentos.

  10. Marcelo Semer 9 de dezembro de 2011 - 19:40 #

    Leonardo. Não fui eu que
    pedi a dissolução da associação, a proibição de seus ocupantes serem juízes, nem que possam julgar certas causas. Quem fez isso foi Veja. Quem quis calar quem?
    Pedro: sinceramente, um texto recheado de "idiotas, cretinos, bobagens" e outros que tais, não merece que façamos uma "análise". Abusar desse vocabulário já é o suficiente para mim. O que me chama atenção, todavia, é o macarthismo embutido naquela afirmação: veja, esses juízes não podem ser juízes… Instrumento de fascismo. De resto, é opinião, cada um tem a sua.

  11. Marcelo 10 de dezembro de 2011 - 11:48 #

    Reinaldo Azevedo criticou, com fundamentos, cada ponto da nota da AJD, que causa preocupação, sim, a partir do momento em que quem pessoas que decidem a vida de outros prega que existem pessoas "acima da lei" (!?!?!?!?!?!?!?!) . A nota foi bem clara nesse sentido, e agora não adianta vir com jogo de palavras para tentar dizer o contrário ! Se eu fosse advogado, ficaria muitíssimo preocupado em ter uma causa nas mãos de um desses juízes "pela democracia" (os outros não são ?) É claro que um magistrado pode ter opinião política, mas deve ter responsabilidade em suas palavras, e nunca pode pregar a desobediência às leis … o que é isso ? Onde estamos ? Anarquia ? A afirmação da "Veja" de quem não podem ser juízes não pode ser pinçada sem a sua análise no contexto … ora, como quem prega a desobiência civil de determinadas pessoas (que estão acima da lei (?!?!?!?!?!?!?!)) pode julgar algum caso concreto que chegar às suas mãos ?

  12. arenhart 12 de dezembro de 2011 - 01:01 #

    EM RELACAO AO MANIFESTO DA AJD EM FAVOR AOS ESTUDANTES DA USP. ENTAO INVASAO, DEPREDACAO E OCUPACAO DE PREDIO PUBLICO NAO EH CONTRA LEI?? OS ESTUDANTES ESTAVAM NO DIREITO DA REINVIDICACAO DELES?? IMAGINEM SE TODOS NO BRASIL FIZESSEM O MESMO? SE ALGO VAI ERRADO, VAMOS INVADIR. IMAGUNE VOCE, QTAS QUESTOES SAO RESOLVIDAS NOS FORUNS DO BRASIL E A QTAS PESSOAS AS SENTENCAS SAO CONTRARIAS, OU NEGADAS ? AQUELE A QUE FOI NEGADA O PEDIDO TERIA O DIRETIO DE INVADIR O FORUM? E SE UMA PESSOA COMPRA UM PRODUTO EM UMA LOJA E ESTA NEGA QQUER ACORDO, ESTA PESSOA TEM O DIREITO DEINVADIR A LOJA? E SE UMA PESSOAS ESTA INSATISFEITA COM UM SERVICO PUBLICO, ELA TEM O DIREITO DE INVADIR A SEDE DA AUTORIDADE LOCAL? VOCES PODEM CRIAR UM PRECEDENTE JURIDICO SE CONCORDAREM COM A INVASAO DOS ESTUDANTES. CUIDADO COM OS DIRETIOS NA DEMOCRACIA. TEMSO LEIS E UMA CONSTITUICAO E DEVEMOS NOS SEGURI POR ELAS. INVASAO DE PREDIO PUBLICO EH DESORDEM PUBLICA, EH CONTRA LEI. MARCHA CONTRA CORRUPCAO EH MANIFESTCAO DE CIDADANIA. GRATO

  13. Rômulo 8 de janeiro de 2012 - 19:46 #

    Por acaso encontrei esse blog, li alguns textos e acabei deparando-me com este. Perdi valiosos 2 minutos lendo texto vazio de sentido, senão de defender o indefensável. Vejo que a maioria dos comentários são favoráveis ao Reinaldo Azevedo. Nada mais justo, o colunista naquele episódio estava com a razão e simplesmente qualificou corretamente: as pessoas tornam-se idiotas quando falam idiotices. O comentário da (ou do) arenhart afirmou tudo o que deveria ser afirmado, nada mais é preciso escrever, seu comentáio foi perfeito.

  14. Fábio Libertario-EDUCAÇÃO OU BARBÁRIE 10 de janeiro de 2012 - 18:15 #

    Só não posso concordar é com BHL que é de direita!

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